segunda-feira, 11 de junho de 2007

A polêmica entrevista de Leila Diniz

...como diz Leila Diniz

Num texto dos anos 70, o jornalista Millôr Fernandes ironicamente exortava: Feministas de todo o mundo, uni-vos. Nada tendes a perder senão os vossos maridos. Era um sarcástico comentário sobre o avanço do movimento feminista que, depois da Europa e dos Estados Unidos, também chegava ao Brasil. Consciente de seu novo papel na sociedade e já tendo conquistado antigos direitos civis como o voto e o acesso à universidade , as mulheres procuravam agora reforçar sua identidade sexual, negando a relação de hierarquia entre o macho e a fêmea. Na busca de um relacionamento mais justo e aberto entre as pessoas, as feministas reivindicavam o direito à sexualidade e à igualdade com os homens no mercado de trabalho.
O protótipo da mulher liberada no Brasil foi Leila Diniz, nascida em 25 de março de 1945, em Niterói, Rio de Janeiro. Formada em magistério foi ser professorinha no jardim de infância de um subúrbio carioca. Estrela de cinema e TV, musa de Ipanema e de uma geração de boêmios da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, Leila ganhou notoriedade quando estrelou o filme "Todas as Mulheres do Mundo", que a mostrou nua e esplendidamente bonita.
Leila mais que uma mulher bonita sempre fora uma pessoa de atitudes corajosas e já aos 17 anos saíra de casa para viver um grande amor com o cineasta Domingos de Oliveira que a lançou como atriz no cinema e nas novelas da TV Globo. Mas bem mais que na arte foi na vida que a atriz desempenhou seu melhor papel.
Com suas atitudes corajosas e liberais, Leila rompeu preconceitos, quebrou tabus, avançando os limites da moral vigente. O casamento com Domingos de Oliveira durou 3 anos e depois disso se casaria com o diretor moçambicano Ruy Guerra, com quem teria uma filha, Janaína. Em 1971, grávida de mais de seis meses, ela ia de biquíni a Ipanema uma prática hoje natural, mas que na época muitos tomaram como uma afronta à tradição, à família e à maternidade.
O maior rebu, entretanto, aconteceu em novembro de 1969, quando chegou às bancas uma edição de "O Pasquim" trazendo uma reveladora entrevista com Leila Diniz. Foi um estouro. Nunca uma mulher brasileira tinha falado de sexo de forma tão aberta na imprensa. A maior parte do que ela falou não saiu publicado naquela edição do Pasquim, e nem poderia. Mas o pouco que saiu no jornal foi suficiente para mobilizar o governo a criar uma severa lei de censura prévia à imprensa, o Decreto nº 1.077, apelidado Decreto Leila Diniz.
Aquela polêmica entrevista de Leila, se por um lado consagrou o mito da atriz, por outro também trouxe-lhe muitos aborrecimentos e portas na cara. A TV Globo, por exemplo, onde ela atuara no início da carreira, negou-lhe trabalho e num momento em que a emissora despontava como líder de audiência. Não tem papel de puta na próxima novela, justificou um diretor da casa. (Ruy Castro, Ela é carioca: uma enciclopédia de Ipanema. São Paulo, Companhia das Letras, 1999, pág. 38). O cerco repressivo foi se intensificando sobre a atriz e numa certa tarde de domingo a Polícia Federal foi buscá-la com uma ordem de prisão à saída da TV Tupi, onde ela se virava como jurada de Flávio Cavalcanti. Providencialmente, Leila saiu escondida no banco de trás do carro do apresentador, que a abrigou durante alguns dias em sua casa em Petrópolis. Depois de muita negociação ficou decidido que a atriz iria depor na Polícia Federal e assinar um documento em que se comprometia a não dizer mais palavrões.
A atriz participou de quatorze filmes (que quase não são exibidos), doze telenovelas e muitas peças teatrais. Ganhou na Austrália o prêmio de melhor atriz com o filme "Mãos Vazia"s.
Leila morreu em junho de 1972, aos 27 anos, quando retornava de um festival de cinema na Austrália. O avião em que viajava explodiu pouco antes de aterrissar no aeroporto de Calcutá, na Índia. Foi uma tremenda fatalidade para quem se afirmava cheia de entusiasmo: A minha maior força é a minha energia, a minha alegria e a minha vontade de viver.
O paradoxal é que esta figura hoje símbolo da liberação feminina no Brasil não se entendia muito bem com as feministas de sua época. Como diz Leila Diniz / homem tem que ser durão ..., cantava Erasmo Carlos no samba Coqueiro Verde. Por essas e outras Rose Marie Muraro dizia que Leila fazia o jogo dos homens e que ser mulher era algo mais que sair dando por aí. Isto não impediu, entretanto, que após a morte da atriz as feministas se apossassem da sua imagem, transformando-a numa bandeira do movimento que se projetou ao longo dos anos 70.

A entrevista para "O Pasquim"
"Eu nunca comi mulher nenhuma porque elas não tem pau. E pra mim pau é um negócio essencial. Eu gosto muito da coisa entrando em mim" Leila Diniz
O Pasquim se notabilizou por publicar suas entrevistas tal e qual o entrevistado falava, sem cortes ou retoques, no caso de Leila não pode agir assim. O vasto repertório da atriz como cu, caralho, tesão, fodida foi substituído por asteriscos e frases inteiras foram suprimidas ou maquiadas na redação.

Ouvindo-se hoje a fita original constata-se, em meio às gostosas gargalhadas de Leila, que ela falou muito mais do que foi publicado. Eu gosto é de trepar, porra!, confessou para ela para a equipe de entrevistadores, entre os quais Tarso de Castro, Jaguar e Sérgio Cabral, que se diziam dispostos a atende-la. E Leila instigava: Acho que prá mim seria bacana trepar todo dia. E não me importaria se fossem uma, duas, três, vinte ou mil vezes, por dia. Eu tenho uma puta resistência física, acrescentando mais adiante: Já me aconteceu de passar uns três dias não fazendo outra coisa na vida senão trepar sem parar.

Sobre os grilos do homem na cama Leila analisou que este negócio de brochar é problema de cuca. O pau não tem nada a ver com isso, coitadinho. O pau é um ser maravilhoso que a cuca às vezes atrapalha. Eu sou contra a cuca por causa disso. Viva o pau e abaixo a cuca. Aquela velha reclamação de algumas mulheres de que faltaria virilidade ao homem moderno, Leila esbravejou: Porra nenhuma! De jeito nenhum! Eu trepo de manhã, de tarde e de noite e tem homem paca por aí. Mas é a tal coisa: eu gosto de trepar.
Frases dela e de outras pessoas sobre ela
"Se tivesse vontade transaria com o motorista de táxi" Leila Diniz
"Professorinha ensinando a crianças, a adultos, ao povo toda a arte de ser sem esconder o ser" (trecho de uma poesia de Drummond , feita no dia da morte de Leila)
"Toda Mulher é meio Leila Diniz" Rita Lee
"Leila Diniz foi um cometa que passou pela nossa terra e deixou um rastro luminoso que até hoje não se apagou" Mariana Várzea, jornalista
"Viver, intensamente, é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz. Encontrar em cada gesto da vida o sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente." Leila Diniz
Uma mulher solar

Primeira mulher a desfilar grávida de biquini pelas areias de Ipanema, Leila chocou diversas vezes a mentalidade conservadora de uma classe média que em 1964 apoiou o golpe militar e apostou na repressão como via de moralização do país.

A mídia aproveitou a imagem até então inédita do ventre fertilizado exposto e o transformou em várias capas de revista. Leila Diniz foi assim associada à vida, à fertilidade, à alegria de viver: uma mulher solar.
A entrevista, a gravidez exposta, os palavrões freqüentemente utilizados em público e a apologia à felicidade foram aos poucos consolidando a imagem de Leila.
Para uns, ela representava o atentado à moral e aos bons costumes, para outros, era o signo matricial da nova mulher: liberada, independente, livre e feliz: um mito solar. Numa sociedade, que na década de 60, passava pelo processo de expansão dos seus meios de comunicação de massa, a consolidação da figura de Leila Diniz foi possibilitada pela mídia.

13 comentários:

booster disse...

A Leila Diniz deu sorte em desaparecer assim tão rápidamente. Deixou o mito.
Se continuasse a viver, estaria hoje fazendo pontinhas como vo^´o em novelas de 5ª categoria na TV e ninguém falaria dela como mito ou líder de coisa nenhuma. Nem se lembraria da entrevista ao Pasquim. Morreu na hora certa.
Geraldo

Marcelle disse...

Como disse Max Geringer: "ou é Cafú ou é Zidane". Acho que Leila não era Cafú. O fato dela ser original não queria dizer que ela era inconseqüente. Era mulher à frente do seu tempo, pioneira na sexualidade e coragem. Temos ídolos da censura e ditadura que não são menos prestigiados por estarem vivos. Admiro a coragem de Leila por que eu faria quase igual. Não seria tão depravada, mas, me expressaria conforme a minha vontade mandasse. E era nisso que se resumia a Leila. Dou as mãos à palmatória.

Anônimo disse...

Meu caro Geraldo, quanta pretensão a sua ao dizer que a Leila "deu sorte em desaparecer assim tão rapidamente". Um jovem , mãe, revolucionária, morrer aos 27 anos ,é uma tragédia.Acabo de ler a biografia da Leila e portanto aprendi tudo o que ela preconizava há 40 anos e sinto-me parada no tempo. O quanto evoluímos desde então?Que lugar as mulheres ocupam na sociedade atual, salvo por meia dúzia de exemplos!!!
Louvado seja a Leila que nos permitiu falar MERDA!
Assinado: Mulheres!!!

Vanessa disse...

esta faltando mulher hoje em dia pra fazer Historia, as que tem aparecem simplesmente pelo rosto ou bunda bonita não tem conteúdo e nada a dizer!

Anônimo disse...

Oi:

Interessante o texto!
Realmente, foi uma pessoa POLÊMICA (quebrando tabus/gerando costumes)...
Reconheço que ela não precisava mencionar sobre sua sexualidade (ainda mais na tal época!): embora ache que o fato dela usar biquine na gravidez 'foi uma boa ideia' (e se muitas mulheres não usam maiôs/peças inteiras, ainda mais quando estão gestantes?).
E faço alguns trabalhos artesanais (caixas, velas, outras): e ela é um dos temas!
Em relação a um comentário aqui: ela se foi aos 27 anos... e deixar uma criança pequena (ao falecer daquele jeito!) seria 'sair na hora certa'?
Leila (Roque) Diniz: um ícone brasileiro!!!

Rodrigo Rosa (Porto Alegre)
http://rodrigo-arte.blogspot.com/

Anônimo disse...

ACHO QUE DEVERIAM FAZER UMA MINI SERIE FALANDO DE LEILA DINIZ ASSIM COMO FIZERAM PARA A GRANDE MAISA. SERIA BOM PARA O PUBLICO.

Anônimo disse...

Maravilhosa,concordo que seja um personagem digno de um seriado,mas na integra com direito a todos os palavrões sem maquiagem,pois em vida ela não se escondeu.Uma mulher a ser lembrada sempre,adorei.É sempre bom saber que existiram pessoas assim.

Anônimo disse...

Realmente marcou muito a vida das mulheres bradileiras naquela época. Eu era adolescente quando ela morreu, achava-a provocativa,alegre, mas sei que foi revolucionária, pois assumia o que dizia, colocava a figura da mulher em foco,fazia-nos pensar sobre valores e sobretudo era espontânea. Mesmo não concordando com tudo que ela dizia, não tenho como não admirá-la ainda hoje.-

M. Exenberger disse...

Eu vi Leila Diniz certa vez no aeroporto. Ela era realmente linda, tinha personalidade, inteligência e era simpática. Merece a fama que tem de mito! Lembro-me dela em algumas novelas (Sheik de Agadir e Dez Vidas) e também de suas aparições fantásticas no Chacrinha e no Flávio Cavalcanti. Lamentavelmente, essa mulher nasceu na época errada. Foi muito perseguida pela ditadura e banida da TV a ponto de ficar sem trabalho...

Anônimo disse...

Mitos são assim, ate parece saber que vão viver pouco. Então vivem intensamente e num curto periodo de tempo fazem tudo e de uma maneira unica. Morreu aos 27 anos como tantos outros mitos é mesmo assim conseguiram deixar suas marcas na historia, morreu não virou mito.

Adelino P. Silva disse...

Ouvi e li a entrevista de Leila Diniz de 1969 ao Pasquim. Houve um escritor ou jornalista que a definiu muito bem: "Muitos quiseram mudar tudo e não mudaram nada. Ela não quis mudar nada e mudou tudo."
Um detalhe: é estranho como os que enaltecem a Leila em seus comentários o fazem no anonimato.

Patricia Montes disse...

Simples assim, se tivesse vivido mais seria concorrente da Dercy Gonçalves.
Bem falou a minha mãe "se quiser que falem bem de ti, more longe ou morra"

Anônimo disse...

Ofensivo para as professoras de todo o Brasil a expressão "foi ser professorinha no jardim de infância". Esse pequeno trecho expressa a posição ocupada pelo magistério no país e sua representação no imaginário social como profissão desvalorizada.Lamentável!