segunda-feira, 11 de junho de 2007

A polêmica entrevista de Leila Diniz

...como diz Leila Diniz

Num texto dos anos 70, o jornalista Millôr Fernandes ironicamente exortava: Feministas de todo o mundo, uni-vos. Nada tendes a perder senão os vossos maridos. Era um sarcástico comentário sobre o avanço do movimento feminista que, depois da Europa e dos Estados Unidos, também chegava ao Brasil. Consciente de seu novo papel na sociedade e já tendo conquistado antigos direitos civis como o voto e o acesso à universidade , as mulheres procuravam agora reforçar sua identidade sexual, negando a relação de hierarquia entre o macho e a fêmea. Na busca de um relacionamento mais justo e aberto entre as pessoas, as feministas reivindicavam o direito à sexualidade e à igualdade com os homens no mercado de trabalho.
O protótipo da mulher liberada no Brasil foi Leila Diniz, nascida em 25 de março de 1945, em Niterói, Rio de Janeiro. Formada em magistério foi ser professorinha no jardim de infância de um subúrbio carioca. Estrela de cinema e TV, musa de Ipanema e de uma geração de boêmios da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, Leila ganhou notoriedade quando estrelou o filme "Todas as Mulheres do Mundo", que a mostrou nua e esplendidamente bonita.
Leila mais que uma mulher bonita sempre fora uma pessoa de atitudes corajosas e já aos 17 anos saíra de casa para viver um grande amor com o cineasta Domingos de Oliveira que a lançou como atriz no cinema e nas novelas da TV Globo. Mas bem mais que na arte foi na vida que a atriz desempenhou seu melhor papel.
Com suas atitudes corajosas e liberais, Leila rompeu preconceitos, quebrou tabus, avançando os limites da moral vigente. O casamento com Domingos de Oliveira durou 3 anos e depois disso se casaria com o diretor moçambicano Ruy Guerra, com quem teria uma filha, Janaína. Em 1971, grávida de mais de seis meses, ela ia de biquíni a Ipanema uma prática hoje natural, mas que na época muitos tomaram como uma afronta à tradição, à família e à maternidade.
O maior rebu, entretanto, aconteceu em novembro de 1969, quando chegou às bancas uma edição de "O Pasquim" trazendo uma reveladora entrevista com Leila Diniz. Foi um estouro. Nunca uma mulher brasileira tinha falado de sexo de forma tão aberta na imprensa. A maior parte do que ela falou não saiu publicado naquela edição do Pasquim, e nem poderia. Mas o pouco que saiu no jornal foi suficiente para mobilizar o governo a criar uma severa lei de censura prévia à imprensa, o Decreto nº 1.077, apelidado Decreto Leila Diniz.
Aquela polêmica entrevista de Leila, se por um lado consagrou o mito da atriz, por outro também trouxe-lhe muitos aborrecimentos e portas na cara. A TV Globo, por exemplo, onde ela atuara no início da carreira, negou-lhe trabalho e num momento em que a emissora despontava como líder de audiência. Não tem papel de puta na próxima novela, justificou um diretor da casa. (Ruy Castro, Ela é carioca: uma enciclopédia de Ipanema. São Paulo, Companhia das Letras, 1999, pág. 38). O cerco repressivo foi se intensificando sobre a atriz e numa certa tarde de domingo a Polícia Federal foi buscá-la com uma ordem de prisão à saída da TV Tupi, onde ela se virava como jurada de Flávio Cavalcanti. Providencialmente, Leila saiu escondida no banco de trás do carro do apresentador, que a abrigou durante alguns dias em sua casa em Petrópolis. Depois de muita negociação ficou decidido que a atriz iria depor na Polícia Federal e assinar um documento em que se comprometia a não dizer mais palavrões.
A atriz participou de quatorze filmes (que quase não são exibidos), doze telenovelas e muitas peças teatrais. Ganhou na Austrália o prêmio de melhor atriz com o filme "Mãos Vazia"s.
Leila morreu em junho de 1972, aos 27 anos, quando retornava de um festival de cinema na Austrália. O avião em que viajava explodiu pouco antes de aterrissar no aeroporto de Calcutá, na Índia. Foi uma tremenda fatalidade para quem se afirmava cheia de entusiasmo: A minha maior força é a minha energia, a minha alegria e a minha vontade de viver.
O paradoxal é que esta figura hoje símbolo da liberação feminina no Brasil não se entendia muito bem com as feministas de sua época. Como diz Leila Diniz / homem tem que ser durão ..., cantava Erasmo Carlos no samba Coqueiro Verde. Por essas e outras Rose Marie Muraro dizia que Leila fazia o jogo dos homens e que ser mulher era algo mais que sair dando por aí. Isto não impediu, entretanto, que após a morte da atriz as feministas se apossassem da sua imagem, transformando-a numa bandeira do movimento que se projetou ao longo dos anos 70.

A entrevista para "O Pasquim"
"Eu nunca comi mulher nenhuma porque elas não tem pau. E pra mim pau é um negócio essencial. Eu gosto muito da coisa entrando em mim" Leila Diniz
O Pasquim se notabilizou por publicar suas entrevistas tal e qual o entrevistado falava, sem cortes ou retoques, no caso de Leila não pode agir assim. O vasto repertório da atriz como cu, caralho, tesão, fodida foi substituído por asteriscos e frases inteiras foram suprimidas ou maquiadas na redação.

Ouvindo-se hoje a fita original constata-se, em meio às gostosas gargalhadas de Leila, que ela falou muito mais do que foi publicado. Eu gosto é de trepar, porra!, confessou para ela para a equipe de entrevistadores, entre os quais Tarso de Castro, Jaguar e Sérgio Cabral, que se diziam dispostos a atende-la. E Leila instigava: Acho que prá mim seria bacana trepar todo dia. E não me importaria se fossem uma, duas, três, vinte ou mil vezes, por dia. Eu tenho uma puta resistência física, acrescentando mais adiante: Já me aconteceu de passar uns três dias não fazendo outra coisa na vida senão trepar sem parar.

Sobre os grilos do homem na cama Leila analisou que este negócio de brochar é problema de cuca. O pau não tem nada a ver com isso, coitadinho. O pau é um ser maravilhoso que a cuca às vezes atrapalha. Eu sou contra a cuca por causa disso. Viva o pau e abaixo a cuca. Aquela velha reclamação de algumas mulheres de que faltaria virilidade ao homem moderno, Leila esbravejou: Porra nenhuma! De jeito nenhum! Eu trepo de manhã, de tarde e de noite e tem homem paca por aí. Mas é a tal coisa: eu gosto de trepar.
Frases dela e de outras pessoas sobre ela
"Se tivesse vontade transaria com o motorista de táxi" Leila Diniz
"Professorinha ensinando a crianças, a adultos, ao povo toda a arte de ser sem esconder o ser" (trecho de uma poesia de Drummond , feita no dia da morte de Leila)
"Toda Mulher é meio Leila Diniz" Rita Lee
"Leila Diniz foi um cometa que passou pela nossa terra e deixou um rastro luminoso que até hoje não se apagou" Mariana Várzea, jornalista
"Viver, intensamente, é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz. Encontrar em cada gesto da vida o sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente." Leila Diniz
Uma mulher solar

Primeira mulher a desfilar grávida de biquini pelas areias de Ipanema, Leila chocou diversas vezes a mentalidade conservadora de uma classe média que em 1964 apoiou o golpe militar e apostou na repressão como via de moralização do país.

A mídia aproveitou a imagem até então inédita do ventre fertilizado exposto e o transformou em várias capas de revista. Leila Diniz foi assim associada à vida, à fertilidade, à alegria de viver: uma mulher solar.
A entrevista, a gravidez exposta, os palavrões freqüentemente utilizados em público e a apologia à felicidade foram aos poucos consolidando a imagem de Leila.
Para uns, ela representava o atentado à moral e aos bons costumes, para outros, era o signo matricial da nova mulher: liberada, independente, livre e feliz: um mito solar. Numa sociedade, que na década de 60, passava pelo processo de expansão dos seus meios de comunicação de massa, a consolidação da figura de Leila Diniz foi possibilitada pela mídia.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

PLANETA DIÁRIO - JORNAL DE HUMOR

O Planeta Diário foi um influente tablóide brasileiro de humor publicado entre 1984 e 1992. Por metonímia, também se costuma dar o nome O Planeta Diário ao grupo de humoristas que produzia o jornal e juntou suas operações com a turma da Casseta Popular, formando o Casseta & Planeta.

"O Maior Jornal do Planeta"

Em 1984 os humoristas cariocas Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva, egressos do Pasquim, se reuniram para produzir um novo jornal mensal de humor. A edição inaugural chegou às bancas em dezembro do mesmo ano.

Desde sua primeira edição, O Planeta Diário estabeleceu um padrão de humor gráfico, baseado na sátira aos jornais "sérios", diferente de tudo que se conhecia. Sob um layout conservador, destinado a se confundir com os periódicos tradicionais nas bancas, O Planeta Diário trazia manchetes falsas como "Nelson Ned é o novo Menudo", "Maluf se entrega à polícia" e "Ozzy Osbourne morde Ivan Lins". A escolha das fotografias potencializava o absurdo: sob o título "Wilza Carla explode na Terça-Feira Gorda" saiu a célebre foto da explosão da Challenger.

A começar pelo nome, o mesmo do jornal de Clark Kent dos filmes e quadrinhos (para que não restassem dúvidas, o próprio Super-Homem -- de bigode e com um globo no peito no lugar do "S" -- surgia no cabeçalho do jornal gritando "Krig-Ha, Bandolo!"), o autoproclamado "Maior Jornal do Planeta" atuou em consonância com a onda de saudosismo dos anos 50 e 60 que ocupou boa parte do imaginário dos anos 80 em todo o mundo -- no Brasil essa tendêncai confluiu com a idealização do período pré-1964 na Nova República. A atmosfera era reforçada pelas explorações gráficas, quase sempre aproveitando fotos e anúncios "garimpados" de revistas dos anos 50 como National Geographic, Life, Saturday Evening Post e O Cruzeiro.

A nostalgia gráfica já era encontrada em trabalhos anteriores, como a capa do LP As Aventuras da Blitz, que fazia tributo à linguagem dos quadrinhos e vinha repleto de pequenas ilustrações extraídas dos catálogos de novelties comumente encontrados em revistas infanto-juvenis americanas (muitas dessas ilustrações seriam exaustivamente aproveitadas no Planeta).

O uso de arte visual de décadas passadas reforçava a "mística" conservadora que o Planeta criara para si mesmo. Perry White (mesmo nome do editor do Planeta Diário nos quadrinhos) era um dono de jornal à Hearst ou Chateaubriand que controlava suas organizações com mão de ferro, gostava de receber homenagens e, aparente alheio à escancarada imoralidade sexual de sua esposa e suas três filhas, vendia o apoio do Planeta a quem pagasse melhor. (A edição que saiu logo depois da eleição de Tancredo Neves estampa um muito sério editorial de apoio à candidatura de Paulo Maluf. Um post-scriptum assinala que o jornal sempre honra seus compromissos, "mesmo quando há atraso na compensação do cheque".)

Enquanto as três primeiras páginas reproduziam aproximadamente o formato (e satirizavam impiedosamente o conteúdo) dos noticiários regulares, o resto do jornal era ocupado com grandes reportagens, ensaios fotográficos (também com imagens recortadas de revistas antigas), anúncios fajutos, louvores a Perry White, fotonovelas, paródias de revistas e de outros jornais, versões "atualizadas" de histórias de Carlos Zéfiro, colaborações da Casseta Popular e outras experiências em humor que, em conjunto, revelam-se como um termômetro das tendências e modismos de meados dos anos 80.

Trajetória

1984-1987: os dias de Perry White

Depois de poucas edições, o tablóide já se tornara um grande sucesso. Proliferavam anunciantes (reais), principalmente do Rio de Janeiro, onde tornou-se in associar-se ao maior fenômeno de humor de seu tempo. Em 1985 "O Planeta em Órbita", série de notinhas extraídas do jornal impresso, começou a ser transmitida nos intervalos na Rádio Transamérica do Rio de Janeiro. A coluna de Perry White se tornou atração da Folha de São Paulo; em 1986 as melhores colunas foram reunidas no livro Apelo à Razão.

O Plano Cruzado (comemorado na edição de março de 1986 na manchete "Cruzeiro muda de nome e passa a se chamar Suely") renderia boas piadas, mas o preço do tablóide foi congelado num nível baixo (5 cruzados), ainda assim pouco competitivo (o mesmo de um jornal de domingo como O Globo ou a Folha). Daí em diante, seguidos pacotes econômicos prejudicariam as finanças do Planeta.

Naquele ano o personagem Osíris Lontra "disputou" uma vaga de deputado federal constituinte.
Na edição dupla do verão de 1987, pela primeira vez O Planeta Diário saiu com capa colorida. A prática seria retomada em caráter regular de 1990 em diante.

Em 1987 o tablóide sentiu as conseqüências da crise pós-Plano Cruzado. A queda nas vendas foi acompanhada de uma série de reformas criativas. Deixando para trás os tempos da novidade e do modismo, o Planeta adotou uma linha mais popular, reduzindo, mas nunca suprimindo, a importância dos sutis jogos de palavras e das referências (algo obscuras) à cultura pop que sempre rechearam os textos.

No segundo semestre de 1987 dois símbolos do "velho" Planeta chegavam ao fim:

Em agosto, sob pressão judicial, o Planeta renunciou ao uso da personagem Perry White e da imagem do Super-Homem, propriedades intelectuais da DC Comics. Segundo o editorial daquela edição, Perry (não mencionado pelo nome) teria perdido o jornal numa mesa de pôquer para suas filhas Georgette, Margarette e Anette White (personagens já conhecidas desde a capa do primeiro número). O espaço do Super-Homem no cabeçalho foi ocupado nas primeiras edições subseqüentes por um busto da Escrava Anastácia.

Em setembro foi publicado o último capítulo de A vingança do bastardo, o primeiro folhetim de Eleonora V. Vorsky. Simultaneamente chegou às bancas o livro de mesmo título. A vingança do bastardo foi seguido imediatamente por Calor na bacurinha, as memórias de Prima Roshana narradas em primeira pessoa.

1988-1989: novos vôos
O sucesso-relâmpago do Vandergleyson Show na Rede Bandeirantes conduziu seus redatores -- as equipes do Planeta e da Casseta Popular -- às portas da Rede Globo. Como conseqüência, em 1988 Cláudio Paiva deixou o grupo do Planeta para se dedicar exclusivamente ao TV Pirata. Para alguns críticos, do ponto de vista criativo, a saída de Paiva representou um golpe de morte no incontrolável espírito jocoso do jornal. Para outros, com ou sem Paiva, a necessidade de conciliar carreiras paralelas na música e na televisão levou os "planeteanos" a dar menos atenção ao veículo impresso.

Sob novas experimentações de linguagem, porém, seguia firme o espírito do "velho" e polêmico Planeta, como na manchete "Depois da China, Sarney irá à merda" (alusiva a uma das viagens da imensa comitiva presidencial).

No primeiro semestre de 1988 saiu a antologia O Melhor do Planeta, já com todas as referências a Perry White suprimidas dos artigos antigos, e o jornal se engajou na campanha de Macaco Tião para prefeito do Rio de Janeiro.

No ano seguinte, a exaustiva turnê de lançamento do disco Preto com um buraco no meio não impediu que o jornal encontrasse novos momentos de brilho na cobertura da campanha presidencial (um bom exemplo está na manchete "Absorventes íntimos aderem à candidatura Collor"). Em compensação, a candidatura de Macaco Tião para presidente não foi à frente devido à ativa militância de Hubert e Reinaldo (como membros da banda Casseta & Planeta) em favor de Lula desde o primeiro turno da campanha.

Em dezembro de 1989 saiu o capítulo final de Calor na bacurinha.

1990-1992: a reta final

Apesar do novo logotipo e do uso em caráter permanente das capas em cores (estratégia adotada desde a edição de janeiro/fevereiro de 1990 para enfrentar a concorrência visual dos jornais diários cada vez mais "colorizados"), O Planeta Diário sofria problemas sobre problemas: irregularidades no papel e na impressão, periodicidade prejudicada (efeito imediato do Plano Collor), falhas na distribuição, redução do número de páginas e conteúdo rarefeito. A queda de qualidade na produção gráfica acabou sendo agravada pelo uso da editoração eletrônica, um recurso então pouco comum em jornais de pequeno porte no Brasil: adotada por proporcionar economia de tempo, trouxe resultados visualmente pouco animadores.

Enquanto isso, a atividade crescente dos editores na frente das câmeras --- em Doris para maiores (1991) e Casseta & Planeta, urgente! (desde 1992) ---, acumulada às temporadas de shows da banda, reduziram ainda mais o tempo disponível para o devido cuidado ao jornal.

Isso não impediu que a República das Alagoas garantisse ao Planeta uma fonte praticamente inesgotável de escândalos e de piadas, gerando os temas de praticamente todas as capas do período --- quase sempre com Fernando Collor, Zélia Cardoso de Mello e outras figuras de Brasília em situações constrangedoras. Numa exceção marcante, a edição de abril de 1991 tornou-se a única a ter ido às bancas em embalagem lacrada devido a nu frontal feminino na capa (manchete: "Sinéad O'Connor ganha na raspadinha").

De março/abril de 1990 em diante foi publicado o folhetim Ardência no regaço, às vezes intercalado por artigos especiais de (ou sobre) Eleonora V. Vorsky.

Em julho de 1992, sob o peso das dificuldades financeiras, O Planeta Diário lançou sua edição final, de número 84. Daí em diante sua dupla criativa se juntou definitivamente à Casseta Popular na mídia impressa, formando a revista Casseta & Planeta.

Atrações freqüentes

O dinamismo editorial do Planeta Diário não permitiu um grande número de colunas e seções regulares: os folhetins de Eleonora V. Vorsky foram a maior exceção. Eis algumas das atrações encontradas com maior freqüência ao longo da história do tablóide:


Clichês e personagens

  • Perry White, a Baronesa White (sua esposa devassa) e suas filhas Georgette, Margarette e Anette White (conhecidas coletivamente como Planetetes)
  • Delegado Peixoto, da 25ª DP
  • O veado dos anúncios da seguradora Hartford, aproveitado incontáveis vezes por sua conotação homossexual

Influência em outras publicações

  • Em 1986, no rastro do sucesso do Planeta (e da passagem do cometa de Halley), o cartunista Ota lançou o tablóide O Cometa Popular.
  • Em 1989, também lançado como tablóide, Anormal se apresentava como uma alternativa anarquista e "não-vendida" ao Planeta e à Casseta, no entanto, levando ao extremo o recurso (cada vez mais usado pelas publicações "adversárias") de enxertar cabeças de políticos em corpos estranhos (notadamente nus femininos).
  • Elementos inspirados no Planeta Diário podem ser encontrados no Revistão do Faustão, publicado pela Editora Globo. A equipe do Planeta recebeu proposta para escrever para o Revistão, mas recusou o convite.
  • Em fins dos anos 80 Hubert e Marcelo Madureira se juntaram na coluna Agamenon Mendes Pedreira, desde então uma atração regular do jornal O Globo aos domingos. Fiel ao espírito do Planeta, a coluna resgatou o tema "homem de imprensa corrupto com esposa devassa" (como era Perry White), os dinâmicos jogos de palavras e até o uso de ilustrações de revistas antigas.

    Curiosidades
  • Ferreira Gullar, uma das maiores "vítimas" das piadas do Planeta (sob o bordão "Você não acha o Ferreira Gullar um gato?"), acabou sendo convidado para participar de uma fotonovela do jornal. O convite não foi aceito.
  • O tablóide foi obrigado a se abster de usar o nome "Perry White" e a imagem do Super-Homem. No entanto, os direitos da DC Comics não se estendiam à marca O Planeta Diário em português.
  • Diferentemente da maior parte das publicações do gênero, O Planeta Diário nunca publicou as cartas dos leitores. A situação foi satirizada pelo próprio jornal em uma "seção de cartas" de aparição única apresentando as queixas conjugais do rei do baralho.
  • Como a Casseta Popular, o Planeta também ofereceu (começando em 1987) uma linha bem-sucedida de camisetas com mensagens como "A perestroika da vizinha tá presa na gaiola", "O cheque não compensa" e "Praia de Ramos, Hawaii".

Fonte: Wikipedia

sexta-feira, 1 de junho de 2007

"A mídia implorava pela intervenção militar"

Entrevista com Mino Carta. Por Adriana Souza Silva, da Redação AOL

No momento em que a Ditadura completa 43 anos e os meios de comunicação vão veicular muita bobagem – sobretudo toda a bobagem suficientemente interessante e capaz de excluir suas mãos do sangue que correu – nada melhor que a palavra de um jornalista que não tem medo dos jornais e que sabe exatamente qual foi o papel da mídia antes e depois de 1964.

Nos 43 anos do Golpe Militar, o jornalista Mino Carta, que viveu na imprensa as tensões da ditadura, fala à reportagem da AOL. "Os jornais que hoje dizem ter sido censurados, na verdade serviam ao regime", diz ele.

Leia os destaques:

"A mídia vinha invocando o golpe há muito tempo. O Brasil tem a pior mídia do mundo. Ela é muito ruim, incompetente, priva pela ignorância, pela vulgaridade, pelo distanciamento e pela falta de responsabilidade."

"A Folha de S. Paulo nunca foi censurada. Até emprestou a sua C-14 [carro tipo perua, usado na distribuição do jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante]."

"Os senhores Civita não entendiam nada de Brasil. Aliás, acho que continuam não entendendo. O rapaz Roberto Civita, que é um outro idiota... Entre o Otavio e o Roberto é um páreo duro para ver quem é o mais imbecil..."

Ele é referência para a imprensa brasileira. Aos 70 anos, o jornalista Mino Carta fez por merecer esta definição. Criou o Jornal da Tarde, em São Paulo, e as revistas Veja, Quatro Rodas, IstoÉ e, sua menina dos olhos, a Carta Capital, que em junho completará 10 anos. Vem daí a legitimidade para bater duro na mídia brasileira. "É a pior do mundo", costuma repetir. Faz pose de herói da resistência, sobretudo quando revela que até hoje usa a boa e velha Olivetti para escrever. E se você o elogia pela fidelidade à maquina antiga, dispara: "Não sei nem ligar um computador, sou um pobre velhinho".

Na semana em que o Golpe Militar faz 43 anos, a reportagem da AOL correu atrás desse "pobre velhinho" - a bem da verdade, um charmoso italiano de Gênova. A censura no período militar foi um tema que despertou sua ironia machadiana. A entrevista aconteceu na redação da Carta Capital, no bairro paulistano Cerqueira César. Aos donos da Editora Abril e da Folha de São Paulo sobraram críticas ferinas. Mino Carta diz que quem sofreu com a censura foram os jornais alternativos. Da grande imprensa - eis um termo que ele detesta -, apenas os jornais O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde tiveram de substituir artigos proibidos por poemas de Camões e receitas de bolo, expediente adotado na época para alertar os leitores dos expurgos de texto indicados pelos censores. Assim mesmo, segundo ele, porque havia uma briga interna entre os militares e a família Mesquita, dona do jornal, por cargos do regime. "Os editoriais da Folha, de O Globo e do Jornal do Brasil clamavam pela intervenção", afirma.

Nascido em data incerta - entre 6 de setembro de 1933 e 6 de fevereiro de 1934 -, Demétrio Carta chegou ao Brasil aos 12 anos de idade. Começou no jornalismo em 1950, cobrindo a Copa do Mundo como correspondente de um jornal romano Il Messaggero. Instalou-se de vez no Brasil em 1960, ano em que fundou a revista Quatro Rodas. As décadas seguintes seriam dedicadas ao
jornalismo. A estréia como escritor foi em 2000, com o romance O castelo de âmbar (Editora Record) no qual destila o sarcasmo genovês em prestado ao personagem Mercúcio Parla, o pseudônimo escolhido para contar suas andanças pela profissão e sua relação com o poder. Na entrevista que segue, Mino Carta passa em revista o período em que o Brasil ficou na mãos dos
militares, revela sua experiência com a censura e detalhes sobre personagens da época. Confira:

AOL - Como os jornais trataram a notícia do Golpe Militar?
Mino Carta - Golpe?! Imagina se alguém iria usar este termo. Os jornais sempre falaram em Revolução. Até hoje, muita gente ainda diz que foi uma "Revolução". O uso indiscriminado desta palavra é uma coisa que me dói. Tenho muito respeito pelas palavras, acho que cada uma tem seu peso, seu valor... Mas, voltando a sua pergunta, a mídia brasileira, desde aquela época, servia ao poder. Digo que o Brasil tem a pior mídia do mundo. Ela é muito ruim, incompetente, priva pela ignorância, pela vulgaridade, pelo distanciamento e pela falta de responsabilidade. A mídia vinha invocando o golpe há muito tempo. Isso é o que mais me lembro dos editoriais de O Globo, do Estadão, do Jornal do Brasil. Nesse tempo, a Folha de São Paulo não tinha o peso que adquiriu depois. Mas esses três jornais soltavam editoriais candentes, implorando a intervenção militar para impedir o caos. Era o caos que estava às portas!

AOL - Então, o golpe era previsível?
Carta - Era claro que o golpe estava em movimento e logo também foi claro que não haveria qualquer tipo de resistência, a não ser uma ou outra coisa isolada que não adiantaria, naturalmente, para coisa alguma. Quando recebi essa notícia - nesse período, eu dirigia a redação da revista Quatro Rodas -fiquei estarrecido. Mas, ao mesmo tempo, não fui surpreendido. Aquilo
estava engatilhado há muito tempo. De resto, há o fato de que essa tragédia teve um lado - não diria cômico porque foi uma tragédia baseada na costumeira hipocrisia e prepotência da elite brasileira, insuflada pelos Estados Unidos -, mas eu posso dizer que houve um lado irônico. Tudo foi feito em nome de uma ameaça, do comunismo, que não existia. O Brasil estava em processo de industrialização. E isso traria certas conseqüências inevitáveis, como por exemplo, o surgimento de sindicatos fortes e o nascimento de um partido de esquerda de verdade, capaz de chegar ao povo, ao contrário do que a esquerda brasileira tem conseguido até hoje. Tudo isso, que iria acontecer mais cedo ou mais tarde, representou, naquele momento, uma justificativa para aqueles que queriam dar o golpe. Aquilo era, evidentemente, previsível. Até porque não houve qualquer tipo de resistência, não foi derramada uma única e escassa gota de sangue pelas calçadas brasileiras.

AOL - E se tivesse havido sangue?
Carta - Se tivesse havido sangue, teríamos a prova de que havia algum a coisa encaminhada, que o Brasil tinha uma resistência organizada. O fato de não ter havido reação alguma prova, de uma forma clamorosa, que não havia nada que justificasse o golpe. Na verdade, havia sim um estudante que sonhava com um Brasil melhor, um ou outro intelectual que achava que a coisa poderia ter tomado um outro rumo e até alguns políticos dignos que gostariam de viver em um País mais justo socialmente.

AOL - O senhor diz que a mídia implorava pela intervenção militar. Mas os donos dos jornais citados pelo senhor falam que foram perseguidos.
Carta - Eles falam isso a custo da destruição da memória. Primeiro, destrói-se a memória. Esse é o processo. Em cima da escuridão, inventa-se qualquer coisa, e os leitores engolem tranqüilamente porque o trabalho é eficaz. A destruição da memória é algo que aqui se pratica com extrema habilidade. Assim como o chute no cadáver, a destruição da memória é um dos esportes nativos do Brasil, praticado com extrema competência. Em cima da destruição da memória, alguns jornais inventam que sofreram censura. O Jornal do Brasil nunca foi censurado. A Folha de São Paulo nunca foi censurada.

AOL - Nunca?
Carta - A Folha de São Paulo não só nunca foi censurada, como emprestava a sua C-14 [carro tipo perua, usado para transportar o jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante]. Isso está mais do que provado. É uma das obras-primas da Folha, porque o senhor Caldeira [Carlos Caldeira Filho], que era sócio do senhor Frias [Octavio Frias de Oliveira], tinha relações muito íntimas com os militares. E hoje você vê esses anúncios da Folha - o jornal desse menino idiota chamado Otavinho [Otavio Frias Filho] - esses anúncios contam de um jeito que parece que a Folha, nos anos de chumbo, sofreu muito, mas não sofreu nada. Quando houve uma mínima pressão, o sr. Frias afastou o Cláudio Abramo da direção do jornal. Digo que foi a "mínima pressão" porque o sr. Frias estava envolvido na pior das candidaturas possíveis, na sucessão do general Geisel. A Folha estava envolvida com o pior, apoiava o Frota [general Sílvio Frota, ministro do Exército no governo Geisel]. O Claudio Abramo foi afastado por isso . O jornal O Globo também não foi censurado. Isso é uma piada. Mas o Estado de São Paulo e o Jornal da Tarde, sim, esses dois foram censurados. Mas a censura veio porque havia uma briga interna deles.

AOL - Como assim?
Carta - Se houve um jornal que apoiou o golpe, foi O Estado de São Paulo. O Estado, assim como o Carlos Lacerda, que acabou caçado três anos depois que a "Redentora" se abateu pelo País. Essa gente aspirava a um papel que não tiveram. Então, começaram a brigar entre eles. O jornal Estado tinha uma profunda antipatia pelo Castello Branco porque ele não aceitou as sugestões do jornal na composição de seu primeiro governo. E aí começou essa briga interna que desaguou numa censura que era praticada na redação do jornal. O Estado tinha de publicar versos de Camões nos trechos das reportagens retiradas na redação. E no Jornal da Tarde eles tinham de colocar receitas de bolo nesses espaços.

AOL - Quem foi, de fato, censurado?
Carta - A revista Veja sofreu uma censura duríssima. Começou depois de 1969, depois de várias apreensões em bancas. A censura só acabou quando saí da revista [Mino Carta criou e dirigiu a revista Veja de setembro de 1968 até 1976].

AOL - A Veja nasceu três meses antes do AI- 5. Não havia esse receio?
Carta - Os senhores Civita não entendiam nada de Brasil. Aliás, acho que> continuam não entendendo. O rapaz Roberto Civita, que é um outro idiota... Entre o Otavio e o Roberto é um páreo duro para ver quem é o mais imbecil... Mas, de qualquer maneira, a revista foi censurada duramente, por muitos anos até 1976. E informo que, a partir de um certo momento, a partir de abril de 1974, ela passou a ser censurada nas dependências da Polícia Federal. Até então, a Veja tinha sido censurada na redação. Os censores iam até lá e liam. Mas quando entrou a Polícia Federal, a Veja passou a ser levada à casa dos censores.

AOL - E como foi aquele episódio em que o senhor teve de desligar os telefones da revista?
Carta - Nós iríamos sair com uma matéria sobre tortura. Era uma grande matéria comandada pela equipe de Raimundo Pereira. A equipe levantou mais de 150 casos de tortura e havia três casos contados em detalhe. Uma semana antes, nós tínhamos saído com uma capa sobre a posse do Médici (1969-1974) dizendo que ele não queria tortura. Fizemos uma puxação de saco com ele e, é lógico, já sabendo que viria em seguida a matéria com os casos de tortura. Queríamos só preparar o caminho. Mas aconteceu que a imprensa da época foi atrás da capa da Veja e começaram a dizer, durante toda aquela semana, que o Médici realmente não queria tortura. Por causa disso, saiu uma ordem, numa quinta-feira, de que o regime militar proibia qualquer referência ao assunto. E na sexta-feira [risos], eu mandei desligar os telefones da redação para não chegar essa ordem até nós. A revista saiu, mas foi recolhida nas bancas. Naquele tempo, não havia assinaturas. Ela ia para a banca e a censura passava recolhendo.

AOL - Como foi sua saída da Veja?
Carta - Havia uma pressão muito grande dos militares para que eu saísse. E a Editora Abril tinha uma dívida fora do Brasil, de 50 milhões de dólares. Eles pediram um empréstimo à Caixa Econômica Federal, mas era um empréstimo dentro da normalidade, eles o fereceram garantias suficientes. Só que era um pedido, evidentemente, que vinha de uma editora e, portanto, tinha conotações políticas. A Caixa Econômica aprovou o pedido, mas precisava do aval do ministro da Fazenda. Mas o ministro da Fazenda falou que precisava da permissão do ministro da Justiça e a coisa acabou na mão do Falcão [Armando Falcão, ministro da Justiça]. E o Falcão falou: "Nós vamos dar dinheiro para aqueles inimigos do governo, que publicam a revista Veja?" Então começou essa pressão.

AOL - E por isso Roberto Civita despediu o senhor?
Carta - Não, eu é que fui ao Civita. Além de dirigir a revista, eu era do conselho editorial da Abril, fazia parte do "board", como diziam eles. Bom, participava das reuniões e sabia de tudo. Nesta altura, fiquei penalizado com a situação deles. Em julho de 1975, falei para o Civita: "Eu saio. Durante dois ou três meses, fico por trás do pano, até as coisas ficarem bem. Depois, posso chefiar as sucursais da editora Abril na Europa. Para mim está ótimo".

AOL - E qual foi a resposta?
Carta - Ele não quis. Então, depois de uma semana, voltei a falar com ele: "Bem, se é para eu ficar aqui na Veja, vou continuar fazendo meu papel. Não vou ceder [à censura]". Ele respondeu que tudo bem. Então, como primeira medida, eu chamei o Plínio Marcos para fazer uma coluna de esportes, na qual você pode imaginar o que ele falava. É isso. Depois ofereci emprego a uma
pessoa que fazia parte do grupo do Vladimir Herzog. E voltei a falar com o Civita, que me perguntou o porquê de eu não tirar férias. Eu disse: "Está bem, eu tiro". E durante as minhas férias, eles se animaram. Quando eu voltei, o Civita me disse que eu tinha de mandar embora o Plínio Marcos. Eu respondi: "Não mando. Se tiver de mandar embora o Plínio Marcos, você manda
me manda embora junto com o Plínio". E ficou aquele "mando", "não mando" até que eu saí.

AOL - E com o Millôr Fernandes, foi a mesma coisa?
Carta - Ah, isso foi antes. Na época do Geisel, eu tinha negociado com o Falcão o fim da censura. Disse a eles: "Vocês querem fazer a abertura lenta, gradual, porém segura, então, tira a censura". O plano deles, teoricamente, era esse. O Golbery [do Couto e Silva] me disse isso. E, de fato, quatro dias depois que o Geisel tinha tomado posse, o Falcão me chamou até Brasília e disse que a censura sairia. Eu disse: "Tudo bem, mas isso não me implica nenhum tipo de compromisso?" Ele respondeu que não. Eu voltei e já saímos com uma capa sobre os exilados. Isso causou certos problemas. Depois trouxemos uma matéria sobre os 10 anos do Golpe, o que nos trouxe mais problemas ainda. Até então não havia a censura. Mas aí veio uma charge do Millôr, que tinha uma seção na Veja. A censura voltou com tudo e, a partir daquele momento, veio aquela época a qual me referi antes, de precisar mandar a matéria para a Polícia Federal.

AOL - O Roberto Civita chegou a mandar o Millôr Fernades embora por conta disso?
Carta - Não. Imagine: ele ofereceu a cabeça do Millôr Fernandes ao Golbery. O Golbery disse a ele: "Não. Eu não estou te pedindo isso". Esse era o Roberto. O Golbery não conhecia que... Isso eu contei muito no meu primeiro livro [O castelo de âmbar, Editora Record]. Está lá, está tudo lá. E nunca foi desmentido porque não há como desmentir. Aquilo lá é a sacrossanta verdade factual.

AOL - Uma das coisas que o sr. conta no livro é de que foi o general Golbery quem o avisou que o ministro da Justiça Silvio Frota iria cair no dia 12 de outubro de 1977. O sr. Já conseguiu descobrir o porquê desta data?
Carta - Não. Até hoje nunca descobri. Mas só voltando à questão da censura, isso é um assunto que sempre mexe comigo. Pior do que Veja, foi a situação dos alternativos. Veja certamente foi censurada de uma forma duríssima. Pior ainda foi com os alternativos. Os jornais alternativos, digo, o Opinião -aliás, naquele tempo já era o Movimento -, o Pasquim, o jornal do D. Paulo (Evaristo Arns), da Cúria de São Paulo, enfim... Todo esse tipo de publicação tinha de mandar o material para Brasília. Nós, na Veja, mandávamos para a rua Xavier de Toledo, de segunda à sexta-feira, e para casa dos censores, aos sábados. Mas os donos dos jornais alternativos tinham de mandar para Brasília. Todo o material. Então, alguém pegava uma pasta, levava até Brasília, entregava. Aí, os caras faziam mil sacanagens, devolviam o material e alguém colocava no avião e voltava para o Rio, ou para São Paulo. Era ainda pior. Eu não conheço censura deste tipo, na história do século passado, em nenhum lugar assim. No tempo do fascismo e do nazismo não era assim. Os censores iam para as redações.

AOL - A impressão que dá é que, apesar de toda a censura, naquele tempo o jornalismo era mais crítico.
Carta - Sem dúvida. A busca da entrelinha era real. Havia muitos jornalistas que tentavam enfiar nas entrelinhas algumas coisas. Às vezes, era algo que só a mãe dele percebia, mas não tem importância. Havia pelo menos esse esforço. Diria que era um jornalismo melhor do que hoje.

AOL - O sr. fala como se tivesse perdido o idealismo daquela época.
Carta - Não. Eu sou muito otimista na ação. Tanto que temos aqui a melhor redação que eu dirigi na vida. Sou otimista na ação, sou otimista em todas as bolas, mas não deixo de ser muito cético em relação ao País. Porque há uma sociedade ruim, má e um povo resignado. Então, é difícil você tirar disso alguma esperança para o atual futuro.

AOL - Afinal, os militares da época não tinham contas nas ilhas Cay man.
Carta - Evidentemente, havia gente corrupta. Mas era gente menos voltada para este aspecto, para essa questão. Neste aspecto, a culpa deles foi ter protegido muitos corruptos. O Golbery, que certamente teve um papel muito importante para o bem e, sobretudo, para o mal, ele é um homem que morreu pobre, que nunca teve nada. Não era esse o ponto. Agora, ele tinha uns amigos do capeta. É muito simbólica essa maneira de ver as coisas. O Andreazza [general Mario Andreazza] também é outro acusado de não sei o quê. Pois morreu e os amigos tiveram de fazer uma vaquinha para o enterro. Mas, certamente, ele tinha uma tranca de amigos muito perigosos.

AOL - E quais são os nomes desses amigos perigosos?
Carta - É melhor silenciar... Há referências a todos em O castelo de âmbar.



Fonte: AOL

terça-feira, 29 de maio de 2007

“A Contracultura na América do Sol”:
O Underground Brasileiro na perspectiva de Luiz Carlos Maciel

por Patrícia Marcondes de Barros

Jornalista, dramaturgo, roteirista de cinema, filósofo, poeta e escritor. Apesar de sua vasta atuação no cenário cultural brasileiro, Luiz Carlos Maciel é comumente lembrado por sua participação no Pasquim, com a coluna Underground, quando então escrevia artigos sobre os movimentos alternativos que eclodiam no mundo, assim como as manifestações anteriores que lhes serviram de base, como o romantismo, o surrealismo, o existencialismo sartreano, a literatura da Beat Generation, o marxismo, entre muitos horizontes (re)descobertos na época. Este trabalho de difusão da contracultura lhe valeu o estereótipo de “guru da contracultura brasileira”.

Incursões de Luiz Carlos Maciel
na imprensa alternativa

Pasquim, coluna Underground (1969-1971)

Luiz Carlos Maciel foi convidado pelo jornalista Tarso de Castro a participar do semanário O Pasquim e lançava em 1969, a coluna Underground.

O Pasquim foi fundado por Sérgio Cabral, Jaguar e Tarso de Castro, no Rio de Janeiro, seis meses após o governo militar decretar o Ato Institucional n.º 5, acabando, assim, com a chamada liberdade de imprensa. Seu primeiro número chegou às bancas no dia 26 de junho de 1969. Era primeiramente considerado um jornal de bairro, no caso, de Ipanema, denominado por muitos como um “jornal de costumes” que conseguiu em poucas semanas emplacar 200 mil exemplares e alcançar rapidamente leitores de vários pontos do país com sua linha editorial irônica.

Os artigos eram variados, assim como a abordagem de cada membro da “patota”. A linhagem ideológica eclética do grupo acabava por definir uma identidade para o jornal.

Segundo Henfil, O Pasquim funcionava como uma espécie de time de onze garrinchas que tinham uma linha política mais ou menos comum, embora um jogue mais recuado, outro avance bem mais, outro só lance. O ponto chave desse jogo é o humor e nisso as individualidades acabavam por se compatibilizar.

O Pasquim inovou o jornalismo brasileiro, se impondo não apenas através do humor, mas também da criatividade e da quebra de formalidades, tendo como alvos a ditadura, a classe média moralista, a grande imprensa e todos os coniventes de plantão.

Maciel, na primeira fase do Pasquim, com a coluna Underground (que podemos datar até sua prisão em 1970), tinha uma curiosidade pela contracultura movida por propósitos meramente jornalísticos. Depois da sua prisão, em 1971, resolveu se aprofundar nas idéias contraculturais, assumindo-se como um hippie. Morou em comunidades, na praia e, por fim, na roça (quando percebera finalmente que era um homem alternativo, porém urbano).

O termo contracultura era sentido no Brasil como algo exótico, uma curiosidade vinda dos Estados Unidos (que induzia a crítica de setores ideológicos da esquerda tradicional, descrentes de sua ideologia revolucionária, considerada subjetiva e individualista).

A parte majoritária do Pasquim compartilhava de uma visão tradicional de esquerda. Para eles, o tema contracultura era associado a um descompromisso, um “desbunde”, advindo do movimento hippie norte-americano (ou seja, uma expressão do imperialismo norte-americano no Brasil).
Com o tempo, a coluna Underground foi perdendo seu espaço dentro do Pasquim, devido ao confronto ideológico que causava, proporcionando uma cisão interna.

A Flor do Mal (1971)

Juntamente com os poetas Tito de Lemos, Torquato Mendonça e Rogério Duarte, Maciel fundou A Flor do Mal (1971), um dos primeiros jornais contraculturais brasileiros.

Para Maciel, A Flor do Mal representava um momento de liberdade extrema, justamente num momento que a supressão da mesma era intensa. O jornal era escrito à mão, numa busca de espontaneísmo total, de eliminação de filtros mecânicos, ideológicos, o que deu ao jornal um perceptível traço de surrealismo.

A capa do primeiro número de A Flor do Mal continha um texto de Baudelaire sobre a imprensa e a foto de uma menina negra sorrindo, despida do peito para cima, representando a pureza espiritual a que ansiavam. Esta iniciativa durou apenas cinco números, contudo, sua tiragem era de 40 mil exemplares, dos quais vendia-se metade. As características inerentes aos jornais alternativos da época eram, geralmente, a falta de dinheiro, o público restrito e a efêmera existência. A Flor do Mal, apesar do curto período de circulação, obteve grandes considerações no meio underground brasileiro.

Seu conteúdo contemplava poesias em versos, poemas em prosa e alguns textos considerados por muitos como absurdos. Poetas da geração mimeógrafo publicaram seus primeiros poemas nesse jornal. De acordo com Maciel, “na Flor podia-se fazer o que desse na veneta”.

Rolling Stone (1972)

No final do ano de 1971, Maciel foi procurado pelo inglês Mick Killingbeck, que veio ao Brasil para trabalhar como físico nuclear, mas que cultivava intimamente um amor pelo rock’n’roll. Conseguiu assim, os direitos da revista Rolling Stone, grande sucesso nos Estados Unidos, para editá-la no Brasil. Maciel foi então solicitado pelo seu interesse na Contracultura e passou a editar a revista no Brasil.

O número zero saiu em 1972, contendo uma longa matéria escrita por Maciel sobre a vinda do grupo de rock Santana ao Brasil, uma crítica de Mick ao show FA-TAL de Gal Costa, uma saudação à volta de Caetano ao Rio de Janeiro através de uma poesia de Maciel, e entrevistas com o próprio Caetano e Jorge Mautner.

A partir dessa entrevista, Maciel estreitou sua amizade com Mautner, considerado pelo mesmo como “veterano do desbunde”, pois vinha da fase da beat generation dos anos 50 e foi, talvez, o primeiro beatnick brasileiro com a obra Deus da Chuva e da Morte (1958).
A experiência com a revista, contudo, foi breve, acabando por questões financeiras. Logo Maciel se reúne com Jorge Mautner na tentativa de fazer uma nova revista underground no Brasil. Surge, então, o projeto da revista KAOS, em 1971.

KAOS (1971)

Nos anos 50, Mautner tinha lançado o movimento do KAOS com “K”, que consistia na subversão e na contestação dos valores vigentes – não apenas políticos, econômicos e sociais, mas principalmente morais, psicológicos e existenciais. É com esse intuito que a revista surge em idéia, contando também com a participação de Caetano Veloso.

Fizeram um release da idéia em forma de gravação, comentando, através de um “bate-papo” informal, as principais propostas e mandaram para jornais e revistas. A idéia não só foi negada por todas estas instâncias, como também, estereotipada como uma iniciativa hippie, contracultural, associada a uma “maluquice sem propósitos sérios”.

Para Maciel, o intuito central da imprensa alternativa comum a todas as iniciativas era o de combater o poder absoluto da mídia, que se quer imparcial de uma realidade objetiva, mas que atende inescrupulosamente a interesses determinados.

O pensamento de Luiz Carlos Maciel deixa a lição de que não podemos creditar à ação política e a qualquer outro processo de natureza coletiva a função de construir um mundo e uma vida com condições materiais e espirituais mais elevadas, só restando o caminho da experiência pessoal, o de cada um inventar sua própria vida através de uma sanidade física e mental, para a formação de uma nova consciência, de uma contracultura que nos tire da apatia do mundo virtual da realidade.

Lembrar a contracultura dos anos 60, segundo Maciel, pode ser mais do que mero saudosismo: pode nos ajudar a tomada de consciência de uma decadência que parece inevitável, mas que não é historicamente necessária. É sempre possível retomar os caminhos da liberdade. Não se trata de repetir a aventura de então, pois cada momento é único. Trata-se de, finalmente tomar conhecimento de suas lições e reinventar novas formas de existência.


quinta-feira, 24 de maio de 2007

IMPRENSA ALTERNATIVA - PASSADO E FUTURO


O Observatório da Imprensa do dia 22 de agosto de 2006 falou sobre os jornais alternativos que, durante a ditadura, combateram a censura com humor e criatividade. O jornal O Sol, que hoje tem sua história contada nas telas de cinema, é um exemplo desses meios de comunicação que, com inteligência e coragem, marcaram uma geração.

Alberto Dines, em seu editorial, disse: “Quando nasce um jornal, alguma coisa acontece. A própria invenção da imprensa causou uma profunda alteração na sociedade européia. Nosso primeiro periódico sem censura, o "Correio Braziliense", abriu caminho para a independência. A fundação do "Estado de S. Paulo" antecipou a abolição. Quando nasce um jornal, alguma coisa sempre acontece. Está nas telas dos cinemas um filme que é também um pedaço da história moderna do Brasil. O protagonista deste filme é um jornal, O Sol. O primeiro jornal alternativo moderno. Lançado em setembro de 1967 para enfrentar a ditadura e o conformismo da grande imprensa, O Sol durou poucos meses, foi até janeiro do ano seguinte, mas algo aconteceu: criou-se o paradigma da renovação e da imprensa de resistência, mais tarde batizada como imprensa nanica ou udigrude, de underground, ou ainda de imprensa alternativa. Hoje, nascem jornais mas nada acontece. São novos produtos dos mesmos grupos empresariais, raramente são projetos de mudança. Inspirado na experiência do Sol, o Observatório da Imprensa discute hoje a falta que faz O Sol. Hoje estamos à sombra da Internet. Tudo o que é novo começa na Internet. Será que é a mesma coisa?

Participaram do programa no Rio, o jornalista e escritor José Maria Rabêlo e o colunista de tecnologia do Globo e do Globo Online, Carlos Alberto Teixeira; em Brasília, o jornalista Reynaldo Jardim e, em São Paulo, o diretor executivo da Revista Reportagem, Raimundo Pereira.

José Maria Rabêlo contou sua experiência como criador do extinto jornal Binômio: “Esses acontecimentos da história surgem sem que a gente tenha pretensão nenhuma. Éramos dois jornalistas muito jovens. O que nos desagradava muito era o clima de unanimidade da imprensa mineira, totalmente controlada pelo Palácio da Liberdade. Então, nós resolvemos lançar um jornal que dissesse algo diferente, mas não tínhamos recursos para fazer um jornal diário. Fizemos humor e a concisão do humor ajuda muito. Uma piada demole uma reputação, mais do que um artigo! O Juscelino lançou o programa Binômio Energia e Transporte e só se falava nisso em Minas Gerais. Então, contra o binômio da mentira e propaganda, Energia e Transporte, o binômio da verdade, sombra e água fresca. Isso teve uma repercussão enorme, amor à primeira vista com o estado, com a cidade. Nós, que não imaginávamos que estávamos fazendo algo duradouro, percebemos que tínhamos na mão um instrumento político muito importante, que durou doze anos até ser fechado em 64 pela ditadura militar.”

Reynaldo Jardim falou sobre o jornal O Sol, o qual ajudou a construir: “O Sol nasceu da constatação de que as escolas jornalísticas não ensinavam jornalismo, a fazer jornal. Então, eu queria fazer uma faculdade de jornalismo que, na prática, editasse um jornal diário, profissional. Por motivos empresariais, a faculdade não deu certo, mas saiu o jornal. Ele era formado por jovens universitários e os editores eram profissionais já consagrados. A Tetê Moraes resolveu transformar essa experiência do Sol e a vida daquela época em um documentário que, realmente, ficou muito emocionante e fantástico. Acho que deveria ser visto por todos os universitários e jornalistas, porque mostra um tipo de jornal e de jornalista totalmente diferente do jornalismo de hoje.”

Raimundo Pereira argumentou a respeito da Internet como novo meio de comunicação: “A grande possibilidade que a Internet cria é de cada leitor ser também um agente. Então, por essa razão, que nós começamos a trabalhar com a Internet há muitos anos, porque é um instrumento novo. Ela também apresenta problemas, que são comuns, assim como a imprensa escrita. A banca de jornais é um caos e a Internet não é diferente. É um caos de informação e que desperta algumas ilusões por parte de alguns que acreditam que qualquer um pode fazer um trabalho de informação relevante. Isso não é verdade, porque para cobrir o conjunto de acontecimentos, para dar uma visão mais razoável das coisas, precisa de organização, recursos. Então, se tem os mesmos problemas que existem para fazer um jornal diário.”

Carlos Alberto Teixeira falou das possíveis mudanças na imprensa do futuro: “Eu acho que a tendência é que jornais com sites na Internet não precisem ter essa perna fora do mundo do computador. Existem algumas profecias de qual será o futuro da imprensa. Basicamente, ela vai passar a funcionar como uma mídia viral, no sentido do contágio. Um blog pode sobressair em relação a outro, em função das indicações, dos links. Um blog muito linkado acaba por ter uma confiabilidade maior. A partir do momento que você tem o Google permitindo pesquisa e busca no grande acervo de informações espalhado no site e também, redes sociais como o Orkut, onde as pessoas se relacionam, você vai pode ter, no futuro, um jornal, um texto jornalístico para cada leitor, associando isso ao fato de que computadores vão estar escrevendo notícias, mesmo achatadas e sem adjetivos. Nessa profecia, a tendência é que jornais de papel deixem de existir.


domingo, 20 de maio de 2007

Jornal Gay na Ditadura - Lampião

SIMÕES JR.,Almerindo Cardoso

Darcy Penteado


No fim dos anos 70, o quadro político brasileiro estava em profunda transformação. A chegada de exilados políticos, em contato com as correntes de revolução sexual, em especial na Europa e nos Estados Unidos, trazia um enorme desejo de mudança e a possibilidade de uma retomada na produção do discurso considerado não prioritário.

Crescia no Brasil também o movimento de esquerda, e, a ele, em princípio, estavam ligados também os discursos de gays e lésbicas. Com o avanço do movimento de esquerda, porém, as lutas dos movimentos homossexuais, da mulher e dos negros passam a ser consideradas minoritárias, um combate menor que deveria ser pensado em um momento posterior (Trevisan, 2002, p.338). Importava a luta maior, a batalha do operariado contra as forças opressoras capitalistas. Todas as outras formas de luta estavam, então, relegadas a segundo plano. Outro fator preponderante era a ligação entre o movimento de esquerda e a ala progressista da Igreja católica, o que não abria possibilidade para discussões sobre temas que interessavam às minorias como aborto, liberdade sexual, divórcio e homossexualidade.

Em fins de 1977, um grupo de jornalistas, intelectuais e artistas se reúne na casa do pintor Darcy Penteado em São Paulo. Animados com a entrevista de Wiston Leyland, editor do Gay Sunshine, surge a idéia da “criação de um jornal feito por e com o ponto de vista de homossexuais, que discutisse os mais diversos temas e fosse vendido mensalmente nas bancas de todo o país” (Trevisan, 2002, p.338). Assim nascia o Lampião, que, segundo Green (1999, p.430), tinha “um título sugestivo da vida gay de rua, mas que aludia também à figura do rei do cangaço”. Em edição de Isto é de dezembro de 1977, Aguinaldo Silva, um dos editores do jornal anuncia o título do mesmo e o porquê da escolha do nome:

O nome do jornal? Há uma lista imensa, mas o que me agrada é Lampião: primeiro, porque subverte de saída a coisa machista (um jornal de bicha com nome de cangaceiro?); segundo pela idéia de luz, caminho, etc.; e terceiro, pelo fato de ter sido Lampião um personagem até hoje não suficientemente explicado (olha aí outro que não saiu das sombras) (Isto é. n.53, p.14, dez.1977).

O jornal, em tamanho tablóide, era impresso em cores neutras. Trazia reportagens com personalidades não necessariamente homossexuais, contos, críticas literárias, de teatro ou cinema. Grande destaque era dado às cartas dos leitores, que se tornavam legítimos espaços de visibilidade para a comunidade. Pequenas notas contra os atos preconceituosos da sociedade eram constantes, assim como ataques diretos a homófobos ou a quem agisse de modo politicamente incorreto em relação aos homossexuais. A linguagem “era comumente a mesma linguagem desmunhecada e desabusada do gueto homossexual” (Trevisan, 2002, p.339).

Assumir e orgulhar-se de sua homossexualidade, sair dos guetos, transitar como qualquer outro cidadão, ter livre arbítrio para escolher lugares de lazer, e, acima de tudo, exprimir livremente sua sexualidade são temas constantes em Lampião. Em especial no primeiro ano de sua existência (1978), esta é a tônica do jornal. Em 1979, o orgulho de assumir identidades homossexuais é associado a questões políticas que emergem no panorama brasileiro. 1980 traz discursos homossexuais ligados a movimentos de conscientização homossexual, buscando o seu lugar dentro de um panorama político. Embora não compactuasse com a postura dos militares, a esquerda considerava as questões homossexuais como parte de uma ‘luta menor’. Nesse ano ocorre em São Paulo o I Encontro Nacional de Gays e Lésbicas e não se poder negar a importância do jornal enquanto elemento articulador e divulgador deste evento. Rodrigues (2004, p.285) argumenta, porém, que o mesmo interesse pelo ativismo político que impulsionou o surgimento do jornal foi um dos maiores responsáveis pelo fechamento do mesmo:

É interessante observar que o interesse pelo ativismo político que deu o pontapé inicial para a concretização do jornal vai ser uma das causas pelo (sic) fechamento do jornal. As lutas internas, editoriais, em torno de qual identidade seguir e a possibilidade de um burocratização do movimento ‘guei’ acabaram por descaracterizar o jornal, levando a uma sensível diminuição nas vendas dos exemplares.

A necessidade maior, portanto, além de sair do gueto, era dar voz a uma minoria, servir como veículo de comunicação livre das pressões e/ou visões estabelecidas por outros órgãos de imprensa. Na verdade, boa parte dos participantes do conselho editorial era de jornalistas ou de pessoas ligadas às artes e cultura em geral, mas que percebiam enorme interdição discursiva ao sugerir o tema homossexualidade. Isso é claramente observado num texto do editorial de número 4 do jornal, escrito por Darcy Penteado. Nele, o pintor responde a uma escritora amiga alcunhada de darling (pode-se perceber o jogo de palavras, já que a mesma, querida em inglês, é usada no meio homossexual e pode ter conotação pejorativa). A referida darling, que pode ser uma personagem imaginária, usada para reafirmar a posição do jornal, numa das reuniões do grupo do conselho editorial havia mencionado que não se fazia necessária a existência de um jornal homossexual, o que só aumentaria a discriminação. Segunda ela, os autores poderiam expor suas idéias nas colunas dos jornais onde escreviam. O trecho/resposta de Darcy vem a seguir:

Darling, como você é ingênua!... Somos aceitos nos outros veículos pela nossa capacidade profissional que – apesar de sermos homossexuais, é também útil ao sistema. Portanto, são eles que nos usam e não o contrário. Nossa opinião é aceita desde que não contradiga as normas: dão-nos às vezes umas colheres de chá e com elas conseguimos encher até pratos de sopa, mas se transbordarmos e sujarmos a toalha... já viu, não é? Você acha, por exemplo, que tudo isto que temos dito e continuaremos dizendo nas páginas de LAMPIÃO teria vez na imprensa hetero? A palavra ‘homossexualismo’ e suas decorrentes chegam a ser proibidas ainda em alguns jornais. A citação ‘lésbica’ foi cortada do artigo de um dos nossos colaboradores para um tablóide da imprensa alternativa. Vários desses mesmos tablóides que se apregoam contrários ao poder estabelecido, portanto vanguardistas políticos, negam a vez e a participação aos assuntos sexuais ‘por não serem prioritários’, e assim por diante. As exceções são abertas mais a serviço do machismo ou quando ajudam no faturamento, porque homossexualismo também virou consumo: “HOMOSSEXUAL atropelado quando atravessava a rua”, “cachorro de HOMOSSEXUAL investe contra deputado”, “ANORMAL tenta seduzir rapaz e é agredido”, etc., etc.
Ainda achamos que a melhor forma de se respeitar a integridade alheia e de se fazer respeitado é expor às claras as próprias verdades. Tínhamos então o ideal e a coragem, mas faltava-nos o veículo, até que LAMPIÃO criou essa possibilidade para nós e para os milhares de outros de quem esperamos ser esse jornal um porta-voz. Portanto, darling, aqui estão algumas das muitas razões de LAMPIÃO ter sido aceso, no momento exato e necessário (n.4, p.2, ago. 1978).


Pode-se perceber na análise dessa carta três posições discursivas do escritor/autor da mesma. Em primeiro lugar, ele se inclui no movimento homossexual quando diz “Somos aceitos nos outros veículos pela nossa capacidade profissional (...)”. Num segundo momento, ele observa o movimento como alguém de fora, quando afirma “A palavra ‘homossexualismo’ e suas decorrentes chegam a ser proibidas ainda em alguns jornais”. Num terceiro ato, ele menciona a posição do jornal, completando uma série de assertivas que podem servir para uma melhor visão da formação ideológica do jornal. Tal exemplo se encontra em “Portanto, darling, aqui estão algumas das muitas razões de LAMPIÃO ter sido aceso, no momento exato e necessário”.

Concomitantemente ao período de circulação do Lampião, várias outras vozes se fizeram ouvir enquanto ecos do discurso homossexual. Além de pequenos jornais que circularam em âmbito local, vários grupos organizados surgiram. O Somos, com sede em São Paulo, mas com filiais em várias outras cidades do Brasil, foi o maior deles. O Grupo Gay da Bahia, integrado por Luiz Mott, mencionado também no jornal, é atuante até os dias de hoje. Não é difícil achar, nas páginas do Lampião, referências a vários outros desses grupos: Auê no Rio de Janeiro e em outras cidades, Eros em São Paulo, Facção Lésbico-Feminista em São Paulo, Libertos em Guarulhos, Beijo Livre em Brasília, Terceiro Ato em Belo Horizonte, Fração Gay da Convergência Socialista em São Paulo, dentre inúmeros outros. Eventos de maior porte, dando visibilidade não só aos homossexuais, mas às minorias em geral são organizados e noticiados: A semana de minorias que reuniu negros, mulheres e homossexuais ocorrida na USP e noticiada em no número 10 de Lampião, em março de 1979; o Encontro Nacional de Mulheres, noticiado no mês seguinte; o I EBHO – Encontro Brasileiro de Homossexuais, ocorrido em maio de 1980, todos parte do processo da “briga da esquerda maior contra a esquerda menor” (Lampião. n.23, p.6, abr. 1980).O panorama histórico, o contexto social, o enfraquecimento da ditadura, as várias vozes que ecoam são, dentre outros, fatores que preparam um terreno fértil para o processo de afirmação de identidades e construção de memórias que perduram até os nossos dias.


sexta-feira, 18 de maio de 2007

Blog x Jornalismo – o que vem por aí?

Virginia Lencastre

O Blog é uma ferramenta de publicação pessoal, que até pouco tempo, podia ser definido apenas como uma espécie de “diário” eletrônico. Qualquer usuário pode ter seu espaço virtual, captando informações por diferentes mídias e construindo uma forma de “poder comunitário”. Produz-se conteúdo, independente da imprensa convencional.

Temos a necessidade de informar e nos mantermos informados, o que estimula a proliferação destes espaços. A mídia já não cobre todas as nossas áreas de interesse, por isso a mudança para o ambiente on line. Cidadãos estão assumindo um papel ativo como comentaristas, editores e produtores de textos noticiosos. O jornalista não é mais o “dono da informação”, da fonte, do furo.

Leitores de blogs encontram dados que não estão presentes na grande mídia, buscando uma porta aberta ao debate.

Outrora os blogueiros estavam preocupados em compartilhar suas experiências pessoais ao invés de produzir textos jornalísticos. Hoje, o blog vem ganhando mais e mais recursos, transformando-se num verdadeiro veículo de comunicação, capaz de chegar a lugares e situações difíceis de serem alcançados. Adquiriu muitos adeptos e tornou-se uma espécie de “bem coletivo”. Cabe a nós refletirmos que caminhos existirão no futuro.

Em 2004, dois jovens vinculados ao Instituto Poynter (Centro de Estudos sobre Jornalismo on line), criaram um documentário/ficção de 8 minutos, intitulado “EPIC 2014”, que antecipa um cenário caótico no processo de jornalismo mundial.

Segundo Robin Sloan e Matt Thompson, três grandes empresas, a Microsoft, Google e Amazon, assumem o comando das informações e passam a manipular o universo virtual da notícia, e, por conseguinte, nossas vidas. A imprensa, como conhecemos, deixa de existir e surge um novo sistema, personalizado, que filtra e prioriza o que recebemos, não tendo qualquer relação com a ética midiática. O vídeo deixa no ar a seguinte pergunta: o que pode acontecer ao jornalismo e a informação nos próximos anos?

Assistam ao documentário ficção "EPIC 2014", clicando na foto do criador da world wide web - Tim Berners-Lee:



Tradução de “EPIC 2014”:


“No ano 2014 as pessoas têm acesso a uma variedade e profundidade de informações que seriam inimagináveis em épocas passadas.
Todos contribuem de alguma maneira.
Todos participam para criar um mundo de mídia vivo e pulsante. No entanto, a Imprensa, como você a conhece, deixou de existir. As fortunas do Quarto Poder se foram. As empresas de notícias do Século XX mudaram muito, uma reminiscência solitária de um passado não tão distante.
A estrada para 2014 começou em meados do Século XX.
Em 1989, Tim Berners-Lee, um cientista de computação do laboratório de física de partículas CERN, na Suíça, inventou a World Wide Web.
1994 vê a fundação da Amazon.com. Seu jovem criador sonha com uma loja que vende de tudo. O modelo da Amazon, que viria depois a estabelecer o padrão para vendas pela Internet, é baseado em recomendações personalizadas automáticas – uma loja que pode oferecer sugestões.
Em 1998, dois programadores de Stanford criam o Google. Seu algoritmo é um eco da linguagem da Amazon, tratando links como recomendações e, a partir deste fundamento, impulsiona a mais efetiva máquina de busca do mundo.
Em 1999, TiVo transforma a televisão, libertando-a das restrições do tempo – e dos comerciais. Quase ninguém que experimenta volta atrás.
Naquele ano, uma empresa "ponto-com" iniciante chamada Pyra Labs lança o Blogger, uma ferramenta pessoal de publicação.
Friendster é lançado em 2002 e centenas de milhares de jovens avançam para povoá-lo com mapas incrivelmente detalhados de suas vidas, seus interesses e suas redes sociais. Também em 2002, Google lança o Google News, um portal de notícias. As redes de notícias reclamam. Google News é editado inteiramente por computadores.
Em 2003, Google compra o Blogger. Os planos da Google são um mistério, mas seu interesse pelo Blogger não é sem razão.
2003 é o Ano do Blog.
2004 seria lembrado como o ano em que tudo começou.
A Revista Reason envia aos seus assinantes um exemplar que traz na capa uma foto-satélite de suas casas, contendo informações personalizadamente direcionadas para cada assinante.
Sony e Phillips lançam o primeiro jornal eletrônico do mundo produzido em larga escala.
Google lança o Gmail, com um Gigabyte de espaço gratuito para cada usuário.
Microsoft lança o Newsbot, um filtro de notícias sociais.
Amazon lança o A9, uma máquina de busca baseada em tecnologia Google que também incorpora as recomendações da Amazon, sua marca registrada.
E então, Google lança suas ações na bolsa.
Com novo capital sobrando, a companhia faz uma grande aquisição. Google compra a TiVo.
2005 – Em resposta aos recentes lances da Google, a Microsoft compra a Friendster.
2006 – Google combina todos os seus serviços – TiVo, Blogger, Google News e todas as suas buscas em algo chamado Google Grid, uma plataforma universal que oferece uma quantidade funcionalmente ilimitada de espaço para armazenamento e largura de banda, para compartilhar e armazenar mídias de todo tipo. Sempre online, acessível de qualquer lugar. Cada usuário seleciona seu próprio nível de privacidade, podendo armazenar seu conteúdo com segurança no Google Grid, ou publicá-lo para que todos o vejam. Nunca foi tão fácil para qualquer um, para todos, criar e consumir mídia.
2007 – A Microsoft responde ao crescente desafio da Google com o Newsbotster, uma rede de notícias sociais e uma plataforma de jornalismo participativo. Newsbotster gradua e ordena notícias, baseado no que estão lendo e vendo os amigos e colegas de cada usuário, permitindo que todos comentem sobre o que vêem.
O ePaper da Sony é mais barato do que o papel real neste ano. É o meio escolhido para o Newsbotster.
2008 vê surgir a aliança que desafiará as ambições da Microsoft. Google e Amazon juntam forças para formar a Googlezon. Google fornece o Google Grid aliado a uma tecnologia de busca insuperável. Amazon fornece a máquina de recomendações sociais e sua gigantesca infra-estrutura comercial. Juntos, eles utilizam os conhecimentos detalhados sobre a rede social de cada usuário, dados demográficos, interesses e hábitos de consumo para prover uma personalização total de conteúdo e de propagandas.
A Guerra das Notícias de 2010 é particularmente notável, pois nenhuma rede de notícias dela participa.
Googlezon finalmente dá um xeque-mate na Microsoft, oferecendo facilidades que a gigante do software não pode igualar. Utilizando um novo algoritmo, os computadores da Googlezon constroem novas matérias e artigos dinamicamente, pinçando sentenças e fatos de todas as fontes de conteúdo e recombinando-as. O computador escreve um novo texto para cada usuário.
Em 2011, o dormente Quarto Poder desperta para tomar uma drástica decisão. A empresa The New York Times processa judicialmente a Google, alegando que os robôs capturadores de fatos da companhia são uma violação à lei de direitos autorais. O caso vai até a Suprema Corte que, em 4 de agosto de 2011 dá ganho de causa à Googlezon.
No domingo, nove de março de 2014, Googlezon lança o EPIC.
Bem-vindo ao nosso mundo.
EPIC vale por "Evolving Personalized Information Construct", um sistema pelo qual nosso vasto e caótico universo de mídia é filtrado, ordenado e transmitido. Todos contribuem agora – desde entradas de blog, até imagens de câmeras de telefones, passando por reportagens em vídeo e investigações completas. Muitas pessoas são pagas também – uma pequena fatia do imenso faturamento da Googlezon, proporcional à popularidade das contribuições de cada um.
EPIC produz um pacote de conteúdo personalizado para cada usuário, utilizando suas escolhas, seus hábitos de consumo, seus interesses, seus dados demográficos, sua rede social – para moldar o produto.
Surge uma nova geração de editores-freelance, pessoas que vendem sua habilidade de se conectar, filtrar e priorizar o conteúdo do EPIC.
Todos nós recebemos conteúdo de vários editores; EPIC nos permite mesclar e comparar suas escolhas sejam elas quais forem. Na melhor das hipóteses, editado para os leitores mais capacitados, EPIC é um resumo do mundo – mais profundo, mais amplo e com mais nuances do que qualquer coisa antes disponível. Mas na pior das hipóteses, e para gente demais, EPIC é meramente uma coleção de curiosidades, em sua maioria inverídica, um conjunto de informações inteiramente estreita, superficial e sensacionalista. Mas EPIC é o que queríamos, é o que escolhemos. E seu sucesso comercial abafou quaisquer discussões sobre mídia e democracia, ou ética jornalística. Hoje, em 2014, The New York Times deixou de estar online, num débil protesto contra a hegemonia da Googlezon, o Times se tornou um jornal exclusivamente impresso destinado apenas à elite e aos mais velhos. Mas talvez houvesse um outro jeito. “

quarta-feira, 16 de maio de 2007

"Brasil Mulher" e "Nós Mulheres":
origens da imprensa feminista brasileira

Este artigo apresenta algumas reflexões sobre a imprensa feminista alternativa que surgiu no Estado de São Paulo, Brasil, na segunda metade dos anos 1970. Essa imprensa se tornou um espaço de expressão de uma linha política intimamente vinculada ao despertar das mulheres para as idéias feministas do período posterior à luta armada contra a ditadura no Brasil. Os jornais Brasil Mulher e Nós Mulheres retrataram, em seus artigos e editoriais, a luta pela anistia, pelas creches e pelas liberdades democráticas - todos símbolos da oposição contra o regime no período da ditadura militar. Além disso, eles incluíam matérias específicas, tais como violência doméstica, condições de trabalho das mulheres, direitos reprodutivos, aborto e sexualidade. Do ponto de vista do movimento popular e das organizações de mulheres, essa imprensa constitui, sem sombra de dúvida, uma fonte importante e ainda inexplorada para compreender o período considerado.

Rosalina de Santa Cruz Leite
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

O texto recupera a história dos primeiros jornais nacionais dirigidos às mulheres e feitos por mulheres 1 no período pós-1975: o Brasil Mulher e o Nós Mulheres. O surgimento desses jornais e os princípios por eles defendidos estão relacionados ao contexto histórico do país e ao movimento feminista nacional, destacando-se o seu compromisso com uma nova linguagem, e com a difusão de reivindicações e propostas diretamente relacionadas com a condição das mulheres.

Inicialmente vale ressaltar que, durante os anos do governo militar, surgiu no Brasil um tipo de imprensa denominada democrática ou alternativa por uns, e, por outros, de imprensa nanica. Esses jornais, com formato tablóide e muitas vezes de tiragem irregular e circulação restrita, eram vendidos em bancas, porém a venda mais significativa ocorria no âmbito da militância. Tratava-se de uma imprensa com características de esquerda e de oposição ao regime, artesanal e comercializada, prioritariamente, mão a mão, ou seja, através da venda por militantes dos movimentos populares em eventos ou nas sedes das próprias organizações.

Essa imprensa era representada por jornais de vários tipos e de diferentes tendências políticas, entre os quais podemos citar Pasquim, Opinião, Movimento e Em Tempo, com posições e informações fundamentalmente políticas, e Versus, Ovelha Negra, Lampião e De Fato, com orientação cultural, sexual e ideológica.

Na fase de maior efervescência política e de abrandamento da censura, cresce essa imprensa alternativa e aparecem também dois jornais feministas em São Paulo: O Brasil Mulher e o Nós Mulheres. De acordo com Maria Paula Araújo, esses jornais feministas foram inovadores não apenas em termos de linguagem, de reivindicações e de propostas, mas também na forma de divulgar uma visão de mundo e uma nova concepção de política.2



Fonte: Revista Estudos Feministas