quarta-feira, 11 de abril de 2007

AS RESPONSABILIDADES DA MÍDIA ALTERNATIVA

Leonardo Guedes*



"Descendo a rua da ladeira, só quem viu que pode contar / Cheirando a flor de laranjeira Sá Marina vem pra cantar...". Bem antes de virar arrasta-povo-de-trio-elétrico-no-Carnaval-baiano na voz de Ivete Sangalo, esta música chamada "Sá Marina" era mais um sucesso radiofônico de um dos cantores mais famosos do país na década de 1960. Seu nome: Wilson Simonal. Negro e dono de um estilo divertido e suingado de interpretar sambas-canção (a chamada "pilantragem"), ganhou muito dinheiro e era apreciado pela mídia da época. Em 1970, após descobrir que um contador estava desviando os lucros financeiros de sua carreira, Simonal chamou dois amigos policiais para prender o golpista. Deu confusão e a situação do cantor ficou complicada quando descobriram que os policiais amigos eram agentes do DOPS, polícia política da ditadura militar que vigorava na época. Não demorou muito, uma matéria do principal veículo de oposição aos militares, O Pasquim, publicou uma matéria dando força ao boato de que Wilson Simonal era um delator de esquerdistas infiltrado no meio artítistico, representado por um imenso dedo negro apontado.

A partir de então, Simonal caiu em desgraça. Suas músicas desapareceram das rádios, sua presença passou a ser indesejada na mídia. Tinha um estilo jazzistíco e inocente demais para gravar músicas de crítica política e reestabelecer a simpatia comprometida, assim como fizeram Elis Regina e Ivan Lins, ambos também acusados de colaboracionismo com o regime militar. Em tempo: Elis chegou a ser ridicularizada numa charge de Henfil por ter cantado o Hino Nacional num evento cívico patrocinado pelo governo. Escapou quando chegaram a conclusão de que ela só fez isso sob ameaças de prisão. Quando um processo de reabilitação estava em curso para Simonal, era tarde demais: debilitado pelo desgosto e pelo alcoolismo, o cantor que consagrou sucessos como "Mamãe passou açúcar em mim" e "País tropical" faleceu em 2000.

O humorista Jaguar, principal articulador das matérias contra Simonal, chegava a orgulhar-se de ter ajudado a destruído a carreira do cantor. Anos depois, com a iminência da morte do artista, admitiu que cometeu excessos, mas ainda assim não demonstrou arrependimento.Não seria justo responsabilizar apenas O Pasquim pela desmoralização de um cantor tão importante para a MPB quanto Wilson Simonal era. O fato é que, novamente relembrando, ele era negro e muito rico para os padrões da época. Consciente disso, fazia questão de aproveitar e expor para o mundo sua felicidade, desfilando com carros conversíveis e mulheres bonitas. E ia além, era engajado na defesa dos direitos dos negros, em plena época de Martin Luther King (por sinal, compôs uma música chamada "Tributo à Martin Luther King", regravada há pouco tempo por seu herdeiro Simoninha). E num país tão racista quanto o nosso, muitos podem ter se sentido incomodados com o "negão cheio de marra". E deu no que deu, a arapuca foi armada e pode-se dizer que O Pasquim foi um instrumento numa guerra de nervos.

Chama-se a atenção para o seguinte: não é porque existem "mídias alternativas" em contraponto com as chamadas "mídias conservadoras", que as "alternativas" devem sentir no direito de ser a palmatória do mundo. Todas estão sob os mesmos deveres do bom jornalismo: apurar a informação, ouvir os dois lados e permitir ao público o direito de tirar suas conclusões, exatamente o que ficou faltando no caso do semanário O Pasquim, eternamente querido nos nossos corações, mas lamentavelmente falho nessa questão.

*Estudante de 5º período de Jornalismo nas Faculdades Integradas Hélio Alonso. Atuou como repórter da Rádio Tropical - Solimões e colaborador do jornal comunitário Tá Dito.

2 comentários:

pc guimarães disse...

Beleza, Gente! Vamos continuar.
pc

Anônimo disse...

Vale a pena fazer um relato mais honesto ou bem informado com relação ao caso de Simonal e seu "contador ladrão".