terça-feira, 10 de abril de 2007

PRODUÇÃO DE ARTE COMO FORMA DE AÇÃO POLÍTICA

Hélio Almeida


Uma das mais radicais manifestações de comunicação alternativa, no sentido ideológico, estrutural e de linguagem, o jornal Versus, lançado em 1975, foi singular em sua produção jornalística e de proposta cultural, o que o diferenciava do Movimento, outro jornal de linha alternativa criado também em 1975. Versus usava metáforas culturais e históricas, criando uma narrativa mítica dos heróis de esquerda.

Lançado por Marcos Faerman, Versus propunha a cultura como forma de ação política. A reportagem factual quase não havia; preferia expressar-se através dos sentidos; valorizava a forma, onde se mesclavam jornalismo, fotografia, desenho, história em quadrinhos, literatura e poesia, adotando a resistência política como manifesto estético, assim como o teatro de resistência e o cinema de resistência.

Versus começou a ser produzido por meia dúzia de jornalistas sem capital, sem empresa, sem equipamentos, mas com o pouco que tinham foram vendendo de mão em mão durante um ano. Já em seu apogeu, em 1977, chegaram a vender 35 mil exemplares. Assinando notas promissórias na gráfica de Pinheiros, que já rodavam jornais alternativos, Versus reuniu, entre outros, Caco Barcellos.

Nas palavras de Bernardo Kucinski, autor de Jornalistas e Revolucionários – nos tempos da imprensa alternativa, versus “era de esquerda sem ser doutrinário, cultural sem ser estritamente literário, e jornalístico sem ser contingente” numa América Latina oprimida por regimes autoritários.

Aos quinze anos, Faerman escreve, edita e distribui jornais estudantis. Em casa, recebe do tio comunista o jornal Semanário, onde há nacionalistas com grande força retórica. Vê a revolução Cubana; torna-se fidelista; entra para o Partido Comunista do Brasil; Vira líder da juventude comunista do colégio; depois vira repórter do jornal Última Hora. Mas é em seu sucessor, o Zero Hora, que Faerman cria juntamente com Luiz Fernando Veríssimo o Caderno de Cultura, o que daria ao nascimento de Versus.

No Caderno de Cultura, do Zero Hora, houve uma edição dedicada a América Latina, uma referência de Versus, trazendo uma integração, latinidade, enfatizando uma cultura um pouco (ou nada) difundida pelos grandes meios de comunicação. Faerman torna-se leitor do Marcha, semanário uruguaio, onde conhece os mestres da narrativa latino-americana: Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, Gabriel Garcia Márquez, Neruda. E também: os Tupac-Amaro, os Sandinos, os Zapatas.

Um visual dramático, transmitindo ao mesmo tempo beleza e tensão, Versus era diferente de tudo que havia sido feito antes na imprensa. Um de seus principais artistas gráficos vivia a cultura da droga, e utilizava desses modos de percepção para a criação gráfica. A plástica de Versus visava o choque estético, buscava transmitir a angústia que estava em todo o continente.

Por volta de 1974 surge na Argentina a Liga Camponesa, que veio a São Paulo no mesmo momento em que a atividade política aumenta no país, e com isso a crescente participação da Liga na Versus. Resultado: houve especulação que Versus estaria caminhando para o gueto, assim como Movimento.

Jorge Pinheiro entra para o Versus com a proposta para a Liga Camponesa de um partido socialista de massas, dentro dos moldes que estava ocorrendo na Europa. Houve resistência mas a idéia aprovada em 1978, com a clandestina Liga lançando a Convergência Socialista, com o apoio da Versus.

O que era um meio de comunicação sem dogmas, usando um estilo new journalism, rompendo com o estilo vigente, tornou-se um jornal com um discurso doutrinário, em direção oposta ao que estava indo. Faerman havia se identificado, assim como a Liga, com as idéias de Trotsky, sua paixão o cegou e ele foi devorado pela Convergência. Faerman assume o discurso político e justifica o alinhamento dizendo que o objetivo é criar um espaço para idéias que estimule o debate. Mas Versus virou folhetim do partido e Faerman perde o controle do jornal.

A qualidade da revista cai. Os argentinos propõem o fechamento de Versus. Eles lançam Caderno para o socialismo e depois um jornal: Convergência Socialista, agora para lutar pelo poder dentro do PT, enquanto Versus agoniza na poética da angústia.

No período dos regimes autoritários, a política fervia no sangue daquela geração que se sentia asfixiada com a repressão. Essa geração criou meios para se expressar como podiam, cada grupo a seu jeito, mas todos com o objetivo de mostrar sua oposição ao regime vigente. Nessa época havia vários jornais que combatiam a ditadura, e Versus era um desses. Ele se diferenciou por sua linguagem, sua estrutura, sua estética. Mas foi cooptado por influências antes externas e versus mergulhou no caldeirão homogêneo da doutrina, que tomou conta e desfez o que era um novo jeito de dizer a mesma coisa naquele momento.

2 comentários:

pc guimarães disse...

Seria interessante conseguirmos imagens do Jornal.
pc

Anônimo disse...

ola, minha editora está lançando a novela biográfica e Jorge Pinheiro, gostaria de saber se voces teriam algum material sobre o jornal Versus, talvez alguma texto dele ou imagem do Jornal. è para publicar. Favor entrar em contato comigo.

Atenciosamente
Layr Cruz
elevacultural@elevacultural.com