sexta-feira, 20 de abril de 2007

MOVIMENTO

Andrea Coelho

Em 25 de fevereiro de 1975, por decisão de Fernando Gasparian, Raimundo Pereira havia sido afastado da direção do Opinião. Em solidariedade, um grupo de jornalistas que fazia parte da equipe e era originário da revista Realidade, também pediu demissão e, junto com Raimundo, resolveram fundar o Movimento. Segundo o jornalista, sua saída do Opinião teria sido motivada por divergências políticas quanto ao apoio ao governo Geisel e ao projeto de abertura política, Na edição especial de lançamento do novo semanário, ele diz:

(...) Havia dois textos básicos de explicação dos acontecimentos, mas que não saciavam a curiosidade dos interessados: o de Fernando Gasparian, publicado em Opinião, uma nota curta falando da saída da equipe, e o da redação redigido pela equipe e lido na Associação Brasileira de Imprensa, no Rio. Como a redação explicava a saída em termos pólíticos e o Fernando em termos pessoais, mais especialmente das minhas características pessoais, havia rumores desses dois tipos. (...)

Foi nomeada uma comissão de 16 pessoas, com representantes de todas as tendências existentes na equipe. Inicialmente, decidiram seguir os princípios norteadores do Opinião, com poderes para decidir quem seria o editor-geral e opinar nas relações internas da redação.

O controle acionário do jornal foi distribuído entre cerca de 200 pessoas. A criação da Edição S.A. possibilitou a existência do jornal, distribuindo cotas para atingir o capital necessário ao empreendimento. A opção foi por um periódico mais popular, que atingisse também a classe trabalhadora. Aliás, um dos pontos inseridos no programa político-editorial do Movimento foi a luta pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores. Em seu número 25, por exemplo, numa edição especial sobre a condição feminina, a temática central era a da “Mulher no trabalho”.

A questão da democracia manifestava-se na luta pelo retorno do país ao pleno estado de direito com a anistia ampla, geral e irrestrita e a formação de uma Assembléia Nacional Constituinte livre e soberanamente eleita. A frase Por um jornal democrático e popular, independente e pluralista foi uma constante em todas as edições, reafirmando à exaustão os princípios do semanário.

Desde seu lançamento até o dia 5 de junho de 1978, quando a censura foi oficialmente suspensa, Movimento teve 3.093 artigos e 3.162 ilustrações cortados. Quando finalmente ficou livre, pôde falar de assuntos antes proibidos como a tortura. No número 155, de 19 de junho de 1978, aparecia na capa com destaque: “Primeira edição totalmente planejada e executada sem censura”.

Em substituição às matérias vetadas pela censura, M
costumava publicar lembretes de autopropaganda ou
de ênfase programática, tais como: retângulos com
fundo branco ou negro, com a inscrição “Leia Movi-
mento
” ou “Leia e assine Movimento”, ou ainda “Os Jor-
nais Independentes Dependem do Leitor – Leia, assi-
ne e divulgue Movimento”, ou também “Leia, assine e
divulgue Movimento, um jornal democrático”.(...)*

O fechamento do Movimento, em 23 de novembro de 1981, foi precedido por uma reunião sobre a crise financeira que vinha rondando o jornal. As causas, entretanto, não se deveram apenas aos aspectos econômicos ou mesmo ao fim da censura.

(...) Prendem-se a dois fatores. De um lado, relaci-
onam-se ao próprio momento histórico vivenciado, ao
lado dos objetivos do grupo representado no poder
do Estado. De outro, à situação interna do periódico
(concebido como um órgão de “frente progressis-
ta”) com as decorrentes dificuldades de manutenção
de correntes divergentes face a um projeto político
cada vez mais definido.*


Na verdade, o fim da censura prévia não representou o fim das pressões sobre Movimento. Outros meios foram utilizados, como a abertura de um inquérito contra o diretor-responsável do semanário, Antonio Carlos Ferreira, por uma série de reportagens sobre a corrupção governamental, que só foi revogado após o processo de anistia, em 1979. Outro fator foi a série de bombas nas bancas de jornais, em 1980, que atingiu os jornais alternativos, pois os locais escolhidos para as explosões eram as bancas que os vendiam. Em seu número final, Movimento assim se posicionou sobre a questão:

Em meados de 80, os jornais oposicionistas são
duramente golpeados pelos setores fascistas
aberturistas, atingindo de maneira mais profunda
jornais que, como Movimento, dependem essencial-
mente da venda em bancas. Os números são claros
para Movimento, que antes dos atentados vendia mais
de nove mil jornais e passa a vender menos de qua-
tro mil no período posterior. Foi o começo de uma
crise definitiva.

O próprio desdobramento do processo de abertura trouxe à tona projetos antes abrigados sob uma mesma “frente”. Movimento passou a sofrer, em sua própria redação, as divergências advindas das diferentes concepções quanto ao encaminhamento do processo político brasileiro. Esses “rachas” acabaram resultando na saída de muitos jornalistas que viriam a criar, mais tarde, o Amanhã e o Em Tempo.



*AQUINO, Maria Aparecida de. Censura, Imprensa, Estado autoritário (1969-1978): O exercício cotidiano da dominação e da resistência: O Estado de S. Paulo e Movimento. Série Memória 57



Fonte: Imprensa alternativa: apogeu, queda e novos caminhos.
— Rio de Janeiro : Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro: Secretaria Especial de Comunicação Social, 2005. 80 p.: — (Cadernos da Comunicação. Série Memória; v.13

3 comentários:

pc guimarães disse...

Bingo! Viva o Movimento. Vcs estão bem nas pesquisas. Agora quero ver o EX.
E depois vamos "humanizar" mais essa página, com entrevistas feitas por vocês.
Concordam?
pc

pc guimarães disse...

http://portalimprensa.uol.com.br/new_focaonline_data_view.asp?code=960

Gentes
Nossos blogs são notícia no Portal Imprensa (da revista Imprensa) em matéria assinada pelo Filipe Cerolim.
pc

Pedro disse...

O Blog de vcs tá show!