segunda-feira, 14 de maio de 2007

JORNAL EX

A fermentação cultural da década brasileira de 60 - Antônio Hohlfeldt

"Imprensa nanica" foi uma expressão criada por Joâo Antonio e estudada pioneiramente por Sérgio Caparelli. O Brasil entrara, definitivamente, durante as décadas de 60 e 70, na era da indústria cultural. A imprensa alternativa ocupou importante espaço com o surgimento de diversas publicações, tais como o "Opinião" (1972 a 1977), o jornal "EX" (logo substituído por "Mais Um") e inúmeros outros francamente políticos como o "Jornal de Debates" (1973), "Polítika" (1973), "De Fato" (BH - 1975) e "Coojornal" (POA - 1975), que sofreu constante perseguição policial, tendo, inclusive, ameaçados seus anunciantes com cortes de verbas de publicidade governamental. Revistas culturais, como a "Argumento" (1973), não passaram do quarto número e a contradição entre um e outro aspecto de nossa imprensa, permaneceu. O" Pasquim" (1969) foi um marco e uma nova experiência relacionada a imprensa, produzido por Millôr Fernandes e um grupo de jornalistas, que anteriormente já haviam feito uma inovação no "Pif-Paf". A cultura alternativa ganharia, ainda, publicações especializadas como Versus, de 1976, dando prosseguimento, de certo modo, à eclosão das histórias em quadrinhos que, desde a grande exposição do MASP em 1970, alcançara um status privilegiado em nosso país. Versus possibilitou a veiculação, no Brasil, de quadrinhos já clássicos internacionalmente e que, no entanto, ainda eram praticamente desconhecidos em nosso país. Na década de 70, por fim, ocorrera o surgimento dos jornais alternativos localizados em determinados segmentos populacionais, como os feministas Brasil, mulher e Nós, mulheres de 1975, dentre tantos outros.

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ENTREVISTA / PAULO PATARRA

Depois da Realidade, veio o jornal Ex, bancado posteriormente por Paulo Patarra, P.Pat. A primeira capa trazia um sósia de Hitler tomando banho pelado na praia; outra, o presidente norte-americano Richard Nixon vestido de presidiário... Isso até começar a pressão dos militares. "Muitas vezes o jornal era feito na máquina elétrica, diretamente no papel. O fotolito era feito a partir do couchê. Não podia errar. Patarra colocou uma grana preta na publicação, o dinheiro de um apartamento. A tiragem foi crescendo, até que a edição que vincularia o melhor do Ex foi apreendida na gráfica. Isto foi determinante para o fechamento do jornal. Suspeitamos até que houve deduragem", revela Myltainho. "Na invasão, todos tremeram com a chegada dos agentes da Polícia Federal, em especial um negro, alto, cujo dedos pareciam cinco cassetetes. O cara não precisava nem de arma." Sob censura, Patarra fechou um jornal e criou outro, o Mais Um, com seus últimos tostões. Um pequeno selo no alto da página trazia a palavra "Ex" na nova publicação, rodada na gráfica de Raduan Nassar, em Pinheiros. Generoso, o autor de Lavoura arcaica não cobrou um débito que a equipe tinha na empresa, fruto das últimas edições do Ex. "Quando lançamos o primeiro número com uma matéria sobre o Esquadrão da Morte, eu e o Half (Hamilton Almeida Filho) fomos chamados pelo coronel Barreto, que, parecendo que ia rasgar o jornal com os dentes, gritou: ‘O que é isso?’ Um dos dois respondeu: ‘Coronel, é um outro jornal’ A réplica do militar foi imediata: ‘Ou vocês param com isso ou não respondo mais pela integridade física de vocês.’ Todos pararam e a turma, liderada por Patarra, se tornou ‘maldita’."


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Entrevista MYLTAINHO - Mylton Severiano da Silva, o craque do texto, colunista da revista Caros Amigos, conta história do Ex.


O ex- era um jornal mensal. Estavam a frente da publicação: Hamilton Almeida Filho, o Haf, Paulo Patarra, o P. Pat., eu, Palmério Dória, os fotógrafos Elvira Alegre e Amâncio Chiodi, mais um monte de “ex-editores”, como dizíamos. Passávamos dias e dias a sanduíche de mortadela com guaraná, no almoço, e macarronada com o vinho "Sangue de Boi", à noite. Andávamos a pé ou de ônibus e o telefone da redação era o orelhão da esquina. Comprávamos um monte de fichas e cada repórter recebia sua cota, para os telefonemas. Decididamente, as grandes redações não queriam mais saber daquela turma, ferreteada com o estigma de criadores de caso, porra-loucas, “drogados”, comunistas, adeptos do “amor livre” e tudo o mais que “não prestasse”. Em sua última fase, no segundo semestre de 1975, com uma injeção de dinheiro do P. Pat., de sua indenização ao ser demitido da Abril, o ex- desandou a crescer. De 7 ou 8 mil exemplares, pulou para 30 mil e, com a morte do Vlado, tirou 50 mil exemplares em duas edições. Vendeu praticamente tudo. O cacife aumentou. Achávamos que íamos nos tornar a grande publicação alternativa do País quando a ditadura acabasse.

EX- publicou uma matéria de Hamilton Almeida Filho, sobre o assassinato de Vladimir Herzog, “A sangue quente”, e teve a redação invadida dias depois. Como viveram este momento? E que alternativas sobraram?

Na verdade, “A sangue quente” foi uma “carona” que tomei do sucesso de vendas de “A sangue frio”, do Truman Capote, sobre famoso crime nos Steites, uns bandidos que mataram uma família para roubar, crime reconstituído com minúcias pelo jornalista-escritor. Com “A sangue quente” batizei a reportagem chefiada pelo Haf, quando ele a publicou em livro, pela editora Ômega. No ex-, a reportagem se chamou simplesmente “A morte de Vlado”. Qualquer conotação que irritasse a “linha dura” podia levar-nos em cana ou ao túmulo. Colegas do sindicato vieram até a redação no dia do fechamento, pedir que não publicássemos nada. Foi patético. Nós, implacáveis, decididos a publicar, e os colegas jurando que estavam tentando nos proteger ao pedir que não publicássemos.
Com o dinheiro amealhado devido ao sucesso do ex-16 (décimo-sexto e último número da publicação), rodamos 50 mil exemplares de um número chamado Extra – O melhor do ex-, idéia do Narciso: uma coletânea das melhores coisas que havíamos publicado em três anos de vida. Era, nós acreditávamos, o golpe de mestre para a independência financeira, pagar salários, firmarmo-nos nas bancas etc. Mas, e jamais poderemos comprovar, a Distribuidora Abril pisou no tomate. Devia ser sexta-feira. Achávamos que naquele dia ou no máximo sábado estaria tudo distribuído. Mas não distribuíram, não sabemos a razão. Eis que dois latagões irrompem na redação. Ficava numa casa da Rua Santo Antônio, no Bixiga. Entrava quem quisesse. Eram da Polícia Federal. O Extra estava apreendido por ordem do Ministério da Justiça. Foram apreender toda a edição nos depósitos da distribuidora. Em seguida, veio a ordem de censura prévia contra nós. Nos faliram.
Tentamos sair com novo produto, Mais Um, com um carimbinho que dizia algo como “Qualidade ex-”, mas fomos chamados à PF por certo coronel Barreto, que nos ameaçou diretamente: “Ou param com isso, ou não respondo mais pela integridade física de vocês.” Acabou-se o que era doce.

2 comentários:

Rebeca disse...

Acharam coisa pra caramba do jornal EX. Que bom!

Lu, tentei colocar, mas não consegui. Depois me explica.

Beijos

pc guimarães disse...

Maravilha, pessoal, maravilha! Vou chamar no blog do professor pc.